Título: Para Furlan, apenas uma etapa foi cumprida e há muito o que fazer
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2005, Brasil, p. A4

As medidas de incentivo a investimentos anunciadas ontem pelo governo foram consideradas insatisfatórias por um empresário singular: o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan - executivo do Grupo Sadia antes de ingressar no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Furlan disse que as decisões de ontem eram apenas uma "etapa", que deixa "muitas questões a resolver" pelo governo, como a eliminação de impostos sobre investimentos de infra-estrutura. Os seus comentários provocaram uma repreensão bem-humorada do presidente Lula. "Quando o Furlan estava falando das coisas que falta a gente fazer, eu estava comentando com o Palocci: o Furlan precisa conversar com um homem de comunicação", disse Lula, em seguida. "Porque é bem possível que a imprensa dê destaque às coisas que não fizemos e esqueça o que anunciamos." O incômodo de Lula foi proporcional à extensa lista de reivindicações exposta pelo ministro do Desenvolvimento para a platéia de políticos e empresários que compareceu à cerimônia no Palácio do Planalto. "Uma parte do seu governo que precisamos trocar de marcha, presidente, é a desoneração de bens de consumo popular massivo", sugeriu o ministro, ao lembrar que já foram retirados os impostos de produtos como feijão, farinha de mandioca, e leite, "tudo que o ministro Palocci gosta". "Agora precisamos colocar também outras coisas que o povo consome", cobrou Furlan, citando estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), segundo o qual os impostos sobre produtos de consumo popular afetam mais fortemente as famílias de menor poder aquisitivo. Furlan anunciou que apresentará suas propostas na próxima reunião do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial, no dia 28, incluindo a suspensão de impostos para produtos da construção civil. "As medidas (para habitação) anunciadas aqui são bem-vindas, mas precisamos contemplar com desoneração os produtos que fazem parte do comércio formiguinha", disse Furlan, voltando-se para o ministro da Fazenda. "Estamos preparando, Palocci, um kit construção civil." Furlan insistiu ainda que é preciso incluir outros bens de capital (como máquinas de lavar industriais) na lista dos que não serão tributados, e foi enfático ao defender o fim dos impostos nos investimentos em infra-estrutura, lembrando que a medida é defendida pela ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef. "O ministro Palocci disse que essa etapa não era possível fazer de forma exemplar, mas a ministra Dilma levanta um ponto muito poderoso, que o Brasil é carente de infra-estrutura", argumentou. Furlan ironizou os embates que teve com a equipe de Palocci antes do anúncio da medida. "A gente não ganhava uma; não vou dizer quem estava do outro lado da mesa", comentou, ao lembrar que, na reunião Lula o abraçou e comemorou a primeira concessão de Palocci como uma vitória do "grupo da produção." (SL)