Título: Lula anuncia mudança no governo e faz pronunciamento em rádio e TV
Autor: Cristiano Romero e Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2005, Política, p. A6

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva planeja anunciar, provavelmente amanhã, mudanças no primeiro escalão do governo. Segundo ministros ouvidos pelo Valor, o chefe da Casa Civil, José Dirceu, deverá deixar seu cargo e voltar para a Câmara dos Deputados. Lula estuda também fazer um pronunciamento à nação para assegurar à população que as denúncias de corrupção contra o governo serão apuradas com rigor e sem proteger ninguém. O presidente deverá ainda convocar uma reunião ministerial após anunciar as mudanças na equipe. Ele convocou para hoje encontro no Palácio do Planalto com as bancadas do PT na Câmara e no Senado. Possivelmente, tratará da crise política, das relações do partido com o governo de agora em diante e da redução do número de ministérios comandados por petistas - hoje, o PT detém 18 Pastas. Um tema delicado que poderá ser abordado é o afastamento do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, do cargo. Lula, segundo um petista influente, é favorável a isso. Ontem, após a solenidade de anúncio da "MP do Bem", Lula chamou ao seu gabinete 17 ministros e o presidente do Sebrae, Paulo Okamotto. O presidente fez questão de dizer que aquilo não era uma reunião ministerial e que ele conversaria depois com os ministros que não estavam presentes. "Não vou tratar desse assunto (reforma ministerial) aqui porque neste governo tudo vaza", desabafou Lula, segundo um ministro. "A reforma ministerial entrou em pauta", informou um assessor do presidente. "O presidente define isso até sexta-feira", revelou um ministro influente. A informação foi confirmada ainda por outros dois ministros. A tendência mais forte, segundo apurou o Valor, é que o ministro José Dirceu deixe o governo. "Dirceu tem chances de sair", disse um ministro próximo do chefe da Casa Civil. "Ele está mais para sair", confirmou um assessor do presidente. Assessores de Dirceu achavam ontem que seria improvável que o presidente o demitisse agora, após o depoimento do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ). O fato é que os cenários de mudança estão se alterando muito rapidamente em Brasília. Especula-se que, com a saída de Dirceu, o governador do Acre, Jorge Viana (PT), esteja cotado para assumir seu lugar. Na noite de terça-feira, Viana esteve com o presidente na Granja do Torto. O governador, segundo assessores do presidente, teria colocado condições para assumir o cargo. Uma delas é que os ministros investigados por supostas irregularidades sejam afastados. Ministros influentes rejeitam a possibilidade de Viana assumir a Casa Civil. Eles têm sugerido a Lula que o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, vá para o lugar de Dirceu. Uma outra versão da reforma que correu ontem em Brasília dizia que ela seria feita em duas etapas. A primeira seria para mexer no núcleo mais íntimo do presidente, com a saída de Dirceu. O cargo seria entregue a um gerente no estilo de Pedro Parente, ministro da Casa Civil no governo Fernando Henrique. O gerente poderia ser o ministro Márcio Thomaz Bastos, que trocaria a Justiça pela Casa Civil. A segunda etapa da reforma partiria da saída de todos os ministros que pretendem se candidatar em 2006, o que abriria um enorme espaço para a incorporação, no governo, da parcela do PMDB que não é ligada ao ex-governador do Rio de janeiro Anthony Garotinho. Com isso, "cria-se um novo eixo de governabilidade", segundo avaliação de um petista. Durante a conversa de ontem com o grupo de 17 ministros, o presidente reiterou que o governo vai investigar todas as denúncias feitas, assegurou que não vai acobertar ninguém e que as investigações "vão até as últimas conseqüências". "Mandei investigar tudo", teria afirmado Lula. Nesse momento da conversa, o presidente disse que planeja fazer um pronunciamento à nação e que decidiria sobre o dia e o formato hoje de manhã. Lula pediu aos ministros que continuem trabalhando normalmente e que, quando convocar a reunião ministerial, o assunto do encontro não será a crise política, mas as ações do governo nas várias áreas. Durante a reunião no gabinete de Lula, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, fez um relato das investigações da Polícia Federal sobre as denúncias de corrupção na Empresa de Correios e Telégrafos (ECT). Um dos focos das investigações, informou Bastos, é descobrir quem gravou as conversas de empresários com Maurício Marinho, ex-chefe do departamento de compras da estatal. O outro foco são os contratos da ECT. Presente ao encontro, o ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, falou sobre a reação do mercado ao depoimento de Jefferson (PTB-RJ) ao Conselho de Ética da Câmara, na terça-feira. "A bolsa subiu, o dólar, inafortunadamente, caiu, presidente. O dólar só cai", brincou Furlan. (Colaboraram Maria Lúcia Delgado e Raymundo Costa)