Título: Azevedo vê incerteza e quer aperto nos juros
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 20/10/2004, Finanças, p. C-1

O futuro diretor de Política Monetária do Banco Central, Rodrigo Azevedo, disse ontem em sabatina no Senado que ainda vê pela frente um cenário de grande incerteza e de alta volatilidade para o preço do petróleo. Ele defendeu uma política de juros restritiva para impedir que a elevação das cotações do produto deteriore as expectativa inflacionárias e se propague para outros preços da economia. Numa rápida sessão, que durou pouco mais de uma hora e na qual apenas seis senadores se apresentaram para fazer perguntas, a indicação de Azevedo foi aprovada por unanimidade pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, com 20 votos favoráveis. À tarde, seu nome passou também pelo plenário do Senado, por 37 a 6. Antes que o economista tome posse no BC, porém, será necessária a sanção pelo presidente Lula. Azevedo foi indicado em fins de julho para substituir o ex-diretor Luiz Augusto Candiota, que deixou o cargo após ser alvo de denúncias de operar com instituições investigadas por lavagem de dinheiro. As eleições municipais atrasaram a análise da indicação. Questionado pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP) se a alta do petróleo no mercado internacional poderia levar a um aperto na política de juros, Azevedo disse que o tema é uma das preocupações do Copom. "Em um contexto de uma economia aquecida, com uso da capacidade ociosa em alta, os impactos secundários de um choque como esse são mais relevantes", afirmou. "O BC deveria reagir com a resposta clássica dos bancos centrais, que é acomodar efeitos primários do choque de oferta (o impacto direto que a alta da cotação tem sobre a inflação) e combater os impactos secundários (ou seja, propagação para outros preços que não têm relação direta com o petróleo)." Na avaliação de Azevedo, a pressão nos preços do petróleo não deverá se reduzir no curto prazo. Houve forte crescimento na demanda mundial, argumentou, e novos investimentos em instalações e tecnologia levam tempo para maturar, o que dificulta uma rápida ampliação na oferta. Azevedo defendeu a autonomia operacional do BC, argumentando que nos países em que ela vigora os índices de inflação são mais baixos no longo prazo. Mas rejeitou proposta apresentada por Suplicy para que as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC fossem gravadas e transmitidas pela televisão 24 horas depois de realizadas. "O Copom utiliza dados sigilosos", sustentou. "Além disso, a prática mostra que as discussões técnicas se beneficiam com a existência de algum grau de informalidade nas reuniões." Azevedo desaprovou ainda proposta originalmente levantada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, para que as reuniões do Copom fossem realizadas a cada dois meses. "O maior espaçamento das reuniões evitaria a TPC (Tensão Pré-Copom)", disse o senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE). "O espaçamento das reuniões do Copom não seria possível neste momento, pois a alta volatilidade da economia brasileira e o volume de informações econômicas acumuladas a cada mês exigem uma análise mais freqüente." A sabatina correu em um clima de cordialidade, exceto no final, quando foi criado um clima de mal-estar com o presidente da CAE, Rames Tebet (PMDB-MT). Ele queria que Azevedo explicasse, didaticamente, porque os juros aos tomadores finais de crédito são tão superiores à taxa básica fixada pelo BC. Azevedo disse que havia um amplo estudo do BC disponível na Internet e se prontificou a prestar esclarecimentos adicionais ao Senado sobre o tema, caso tivesse sua indicação aprovada. Tebet mostrou de forma clara sua irritação com a resposta pouco esclarecedora. "Os relatórios do BC nunca são bem explicados porque sua explicação sempre fica para uma outra ocasião", disse o senador.