Título: Para tucanos, apuração de denúncias deve chegar a Lula
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2005, Política, p. A8
O PSDB pretende manter a estratégia na investigação de corrupção nos Correios e pagamento de mensalidade a deputados, cujo objetivo é enfraquecer eleitoralmente e não tirar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva do governo. Mas a cúpula tucana já está convencida de que apuração, mais dia menos dia, vai envolver diretamente o presidente da República. Na avaliação dos caciques tucanos, a investigação baterá às portas do presidente Lula quando o governador de Goiás, Marconi Perillo, confirmar na CPI dos Correios que avisou Lula sobre a tentativa de cooptação de deputados goianos por partidos da base do governo, em troca do pagamento do "mensalão". O depoimento de Perillo, que será corroborado pela deputada licenciada Raquel Teixeira (PSDB-GO), um dos três parlamentares goianos que teriam sido sondado para participar do esquema, evidenciaria que Lula tinha conhecimento do "mensalão" há pelo menos um ano, bem antes de ter sido avisado pelo deputado Roberto Jefferson. Não há interesse político do PSDB em adotar o discurso do impeachment, posição para a qual recuou também o PFL. Os tucanos acreditam que Lula ainda tem margem de manobra para sair da crise, embora mais enfraquecido, desde que crie condições para retomar a iniciativa política e saia da paralisia em que se encontra atualmente. A receita tucana é a mesma discutida no Planalto: Lula precisa fazer uma ampla reforma ministerial para afastar do governo ministros atingidos em cheio pela crise, como Romero Jucá (Previdência Social) e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, além, evidentemente, de José Dirceu, chefe da Casa Civil. A substituição de Dirceu por Antonio Palocci seria bem assimilada pelo PSDB, que vê no ministro da Fazenda um interlocutor mais fácil. O discurso econômico de Palocci e dos tucanos é parecido, na essência. Além da reforma ministerial, os tucanos acham também que Lula pode propor uma agenda positiva ao país, que seja aceita também pela oposição. Isso, segundo avaliam alguns caciques, poderia permitir ao presidente atravessar a crise sem ser inteiramente consumido por ela. A dúvida é sobre a capacidade de reação do presidente. Impeachment é uma palavra que o PSDB prefere não utilizar. Até para não dar sentido ao discurso adotado pelo governo sobre o "golpismo da oposição". A sociedade, dizem dirigentes tucanos, apóia a investigação ampla do governo, mas, até agora, não há elementos para dizer que quer também o afastamento de Lula. É um risco que o partido prefere não correr. Mas nada indica que essa postura será mantida até o final das investigações. A estratégia deve ser ajustada sempre que o partido julgar necessário a partir de descobertas da CPI.