Título: Fornecedor brasileiro ganha o exterior
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2005, Empresas &, p. B8
Aviação Consórcio que reúne 12 pequenas companhias do setor aéreo participa do Salão de Le Bourget
Um consorcio de 12 pequenas empresas brasileiras do setor aeronáutico participa do Salão Aeronáutico de Le Bourget na busca do mercado externo para reduzir a dependência em relação a Embraer e não esconde o entusiasmo com as perspectivas que se abrem. As empresas estão reunidas na HTA, High Technology Aeronautics, e seus proprietários são todos ex-funcionários da Embraer. O consórcio tomou corpo em 2000, mas foi logo afetada pelo impacto dos atentados de 11 de setembro nos EUA, que deslanchou uma dramática queda na industria aeronáutica. Agora, com a retomada gradual do setor, a HPA começa a abocanhar os primeiros resultados concretos. Urbano Cicero de Fleury Araujo, presidente do consórcio, destaca um acordo de US$ 30 milhões em dez anos para fornecimento de peças para a EADS/Casa, da Espanha. Através desse contrato, espera no futuro fornecer peças também para Airbus. Além disso, o consórcio assinou contrato de dez anos com a canadense Pratt Whitney, que pode chegar igualmente a US$ 30 milhões. O objetivo é produzir componentes de turbinas. Para o grupo de ex-engenheiros, isso tem um valor simbólico especial, porque o Brasil deixou de fabricar turbina aeronáutica em 1994, quando a estatal Celma foi vendida para a GE americana. Esta companhia suspendeu a fabricação das turbinas e concentrou-se na manutenção. Um terceiro contrato da HTA é com a americana Hamilton Sunstrand. O fornecimento de peças tambem pode gerar um bom montante nos próximos anos. A expectativa do consórcio é de reduzir pela metade a dependência em relação a Embraer dentro de alguns anos. No momento, isso está distante. Cerca de 85% do faturamento de US$ 15 milhões em 2004 partiu da brasileira. Para este ano, a previsão é de faturamento próximo de US$ 18 milhões, quase tudo valor agregado, ou seja, de serviços. O grupo foi convidado pela Embraer para participar de uma concorrência que definirá o parceiro no desenvolvimento da estrutura do "very light", a versão mais leve do jato executivo, de seis passageiros e dois tripulantes. A perspectiva é interessante, porque o BNDES poderá ajudar no financiamento para modernização dessas empresas. Até agora, para poder se atualizar tecnologicamente, o caminho tem sido difícil, dizem seus representantes. Claisa e José Wilmar de Melo Justo Filho acabaram fechando negócio recentemente com a Thyssenkrupp, da Alemanha. Os cartões de visita ainda são da antiga Autonoma, mas agora os alemães detêm 80% da empresa. Em contrapartida, investem US$ 6 milhões em equipamentos. Três outros participantes do consorcio - Bronzeana, SPU e Grauna - vão se juntar, formar um quadro de 350 funcionários e buscar novas condições de financiamento e tecnologias. "Este ano, já vamos fazer US$ 1 milhão com fornecimento ao mercado externo", comemora Nelson do Val Lacerda, dono da Compoende, a empresa que faz a inspeção de todos os componentes fabricados pelo consórcio para conferir a qualidade final de cada peça. "A própria Embraer nos estimula a não depender demais dela, diante da situação de risco nesse mercado", diz Urbano. Entrando no mercado externo, o consórcio vai começar a importar matérias-primas, tudo certificado, para acrescentar valor agregado e exportar. "Os fabricantes no mundo inteiro estão em busca de custo baixo e vêem que o setor aeronáutico no Brasil pode oferecer isso", diz Urbano. "É custo barato associado a qualidade que eles nunca vão encontrar na China", exemplifica Justo Filho. Para Alan Sinchair, ex-diretor da Rolls Royce no Brasil, o potencial brasileiro é enorme para atrair fornecedores a se instalarem em volta da Embraer no Vale do Paraíba. E melhor ainda com joint venture. "A Inglaterra, pelo seu peso no mercado aeronáutico, tem uma presença pequena demais no Brasil e isso pode mudar", afirma. Por sua vez, o presidente da Apex, Ingo Ploger, não esconde o entusiasmo com a presença do consorcio no Salão Aeronáutico de Le Bourget. "Há a perspectivas de joint venture com nossos fornecedores, inclusive para prestação de serviços em terceiros mercados", declarou. A Apex ajuda com propaganda e pagando o stand do consórcio. "É da maior importância essa participação, estamos abrindo enormes contatos", diz Urbano.