Título: Empresas de petróleo e gás sofrem com a crise da Bolívia
Autor: Felipe Frisch
Fonte: Valor Econômico, 16/06/2005, EU &, p. D2

Balanço Setorial Analistas ainda recomendam Petrobras, com pouco impacto, mas criticam dependência da Comgás

As ações do setor de petróleo e gás ainda podem levar tempo para se ver livres do impacto da crise na Bolívia. Apesar de analistas considerarem que o atual cenário já "está no preço" dos papéis da Petrobras por exemplo, se a falta de gás fornecido pelo país vizinho se confirmar, empresas como a Comgás e suas ações podem sentir o efeito. Segundo cálculos das corretoras, aproximadamente dois terços tanto do gás que a companhia distribui quanto do que o país consome é boliviano. Luiz Felix Cavallari, da corretora Fator, avalia que, do setor, a distribuidora de gás deverá ser a empresa mais afetada pela crise política na Bolívia. "A CEG (fornecedora de gás do Rio de Janeiro, de capital fechado) usa 100% de gás nacional, da Bacia de Campos", diz. Na avaliação dele, o maior problema para a Comgás é o tempo que a companhia levaria para substituir o fornecedor do gás natural utilizado. No ano, as ações PNA da distribuidora acumulam queda de 15,32%. Hoje, a empresa depende do gás fornecido pela Petrobras, que vem da Bolívia. "Isso demonstra um erro lá atrás da estatal petroleira em fazer um investimento desses com esse tipo de dependência", ressalta. Demonstrando que a crise é real, a própria Petrobras estaria tirando a prioridade da oferta de gás automotivo, que representa 9% das vendas da Comgás, ele diz. A Petrobras estaria priorizando a oferta de gás para indústrias e residências, casos em que a substituição por outro combustível é quase impossível. Falando em substituições, a própria Petrobras está em busca de novos acordos com outros países para fornecimento de gás, como o Peru. "Mesmo a enorme reserva de gás descoberta na Bacia de Santos só deve começar a ser extraída entre 2007 e 2008, mas a empresa está tentando antecipar isso, revendo o plano estratégico", explica Cavallari. Na avaliação dele, o impacto direto da crise boliviana no resultado da Petrobras será baixo, já que o gás natural representa apenas 4% do seu faturamento. E mesmo os investimentos que precisarão ser feitos poderão ser deslocados de outras áreas, como da exploração de petróleo e refino, sem prejudicar estas atividades. A margem de manobra é grande: a empresa planeja investir, em média, US$ 7,8 bilhões anuais de 2004 a 2010, dos quais 40% vão para abastecimento, distribuição, energia e segmento petroquímico, lembra o analista. O restante seria destinado a exploração de petróleo e gás. As recomendações de compra para as ações da Petrobras são mantidas pelos analistas. A chefe de análise do Banco Espírito Santo, Mônica Araújo, destaca a expectativa de aumento efetivo da produção da estatal no ano, com a inauguração das novas plataformas: P-50 no campo de Albacora Leste, no terceiro trimestre - com expectativa de extração de 180 mil barris diários -, e P-34 no quarto trimestre, no campo de Jubarte, com capacidade para 60 mil barris. Ela acredita que a redução nas importações de gás, que durou três dias na semana passada, já foi normalizada. Mônica tem preço alvo de R$ 140,61 para as ações preferenciais da estatal - e deve revisá-lo em breve, para cima provavelmente - e projeta dividendos nesse ano equivalentes a 6,1% do preço da ação. Oswaldo Telles, do Banif, consideraria justa uma cotação de R$ 162,00 para a estatal, mas lembra que as plataformas instaladas atualmente já estão no limite. Ele projeta um lucro líquido de R$ 17,7 bilhões para a Petrobras em 2005 e também descarta a possibilidade de impactos da crise boliviana nos papéis. "Não tem mais piqueteiro nos campos de produção", diz. Outras companhias do setor correm ainda menos risco de impacto da crise boliviana, avalia Cavallari, da Fator. É o caso da Ipiranga Petróleo, que compra e distribui combustíveis da Petrobras. "As refinarias utilizam o gás para refinar diesel e gasolina, mas, para isso, pode ser utilizado o óleo combustível", diz. Segundo ele, não há risco de faltar os dois principais combustíveis aqui. Apesar da tranqüilidade, o analista pretende revisar suas projeções para as ações do setor para baixo em todos os casos.