Título: PT espera que Dirceu contenha avanço do arrocho fiscal no governo
Autor: César Felício, Cristiane Agostine e Caio Junqueira
Fonte: Valor Econômico, 20/06/2005, Política, p. A6

De volta para o centro das articulações internas do PT, o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, dependerá do ritmo das investigações no Congresso sobre as denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) para definir o seu papel estratégico nas eleições de 2006. Dirceu deve ser ouvido esta semana pela corregedoria da Câmara. Se não surgirem nos próximos meses fatos novos, está fortalecida a tendência de reeleição no primeiro turno do presidente da sigla, José Genoino, no processo de eleição direta que o partido promoverá em setembro, tendo Dirceu como seu principal eleitor. Este será o ponto de partida para o PT tentar barrar o avanço de uma agenda que reforce a ortodoxia econômica no governo. Presidente do partido por oito anos, Dirceu tem um poder de mobilização e agitação incontestável. "Na sociedade ele teve desgaste, mas no partido se fortaleceu", disse o deputado estadual Cândido Vaccarezza (SP). Os primeiros sinais neste sentido foram dados neste fim de semana, com a derrota no Diretório de todas as manobras para afastar os dirigentes Delúbio Soares e Silvio Pereira e com o desagravo recebido por Dirceu em uma reunião na Casa de Portugal, em São Paulo, na sexta-feira. Caso a CPI comprove a existência de um "mensalão" pago pelos petistas, entretanto, integrantes do Campo Majoritário temem o fortalecimento da esquerda do partido e a necessidade de se fazer concessões aos radicais que afastem a sigla do governo. "Descobrir que existe algum fundo de verdade no que Jefferson diz será um soco na boca do estômago da militância", afirmou um petista alinhado com a direção nacional. Este "soco na boca " da militância é a esperança dos seis adversários de Genoíno em tentar levar a disputa ao segundo turno, para ao menos ganhar influência na discussão de rumos em 2006. "Eles ganharam por pouco mais de 50% na última eleição, mas governam como se fossem 90%. Queremos participar, ter mais espaço", reclamou Romênio Pereira, da tendência Movimento PT, que apostou: "Anote aí, essa eleição vai surpreender. Naturalmente essas denúncias vão ter um reflexo muito grande na eleição interna." Neste momento, a volta de José Dirceu foi recebida pelo Campo Majoritário como a grande chance do partido dar o tom da campanha de reeleição de Lula em 2006 e impedir, com a mobilização em todo o País que anunciou que fará nos próximos meses, a adoção de uma agenda exclusivamente pró-mercado na campanha do presidente. "As forças da direita derrubaram o Dirceu porque não querem um segundo mandato, já que o segundo mandato será diferente do primeiro. Se não for , a reeleição não valerá a pena", disse o prefeito de Diadema (SP), José Filippi. "O governo precisava de uma sacudida e o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, vai ter que compreender a necessidade de avanços sociais e entender que não dá para cortar recursos garantidos constitucionalmente para a saúde e a educação", disse o deputado distrital Chico Vigilante. Com outras palavras, o prefeito de Guarulhos (SP), Elói Pietá, expressou o mesmo sentimento. "O PT é partido com tradição de luta e o fato de estar no governo nos deu uma certa acomodada. Isto tudo pode dar um efeito contrário ao que os adversários estão querendo. No ato em sua defesa na sexta, Dirceu mostrou que, mesmo sem cargos no partido, está no comando da candidatura de Genoino. "Precisamos melhorar a nossa relação interna no partido e entre o partido e os movimentos. Temos, no governo, de reconhecer os nossos erros. Vamos fazer do processo de eleição direta do PT um momento de defesa do governo". Dirceu disse ainda que pretende fazer uma mobilização que deixe o PT no papel de protagonista na discussão de 2006. "Vamos percorrer o Brasil todo. Vamos fazer atos nas ruas, nas praças públicas, para não só defender o governo, mas discutir os rumos do governo". Por trás de um discurso conciliatório, os dirigentes do PT passaram como um rolo compressor por cima dos membros do diretório nacional que pediram no sábado o afastamento do tesoureiro Delúbio Soares e de secretário geral do partido, Silvio Pereira, alvos das acusações de Jefferson. O pedido sequer foi colocado em votação. Receberam recomendações de não levar o caso para votação, para evitar maior desgaste do partido. A decisão já havia sido consolidada na reunião do campo majoritário na sexta-feira. Os integrantes do campo majoritário, contudo, deixaram uma porta entreaberta para mudanças no futuro, de caráter voluntário. "Mudanças internas agora, só se alguém quiser sair", disse o ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini. A princípio, Dirceu fica de fora da chapa . A falta da maioria em negociar irritou a minoria. "Deveriam ter uma postura mais humilde e autocrítica. O gesto de Dirceu deveria ser repetido", queixou-se o deputado estadual Raul Pont (RS), postulante à presidência do partido pela corrente Democracia Socialista."A saída de Delúbio e Silvio é até mais importante do que a saída de Dirceu", protestou o deputado federal Chico Alencar (RJ), que apóia a candidatura do ex-deputado Plinio de Arruda Sampaio. Mesmo dentro do Campo Majoritário existiu unanimidade sobre o assunto. Com ressalvas sobre a conseqüência que o afastamento imediato pode gerar, o deputado federal João Paulo Cunha (SP) mostrou-se favorável ao licenciamento. "Não pode ser uma decisão unilateral. Mas a saída pode parecer uma confissão de culpa. Não precisa ser decidida hoje", disse, sugerindo cautela. Com opinião semelhante, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP) justificou a manutenção dos dois, mas ressalvou: "Se eu estivesse na situação deles, me afastaria para proteger o PT, tirar o foco do partido. Mas nessas circunstâncias, o afastamento poderia levar a uma conclusão precipitada. Referendaria essas conclusões". Do Campo Majoritário, o deputado federal Paulo Delgado (MG) encaminhou pedido de chapa única para a eleição interna. Rejeitada pelas forças da esquerda, a idéia também não foi à votação. " Não há razão. Se eles aceitarem demitir Palocci, Furlan e Rodrigues, poderemos formar chapa com eles", expressou Plínio de Arruda Sampaio. Genoino desmentiu com irritação a notícia de que ele teria ameaçado renunciar se os dirigentes fossem afastados. Na reunião a portas fechadas que durou dez horas, Dirceu instruiu a defesa dos dois. Ele se fechou em uma conversa separada com Delúbio e Silvio, enquanto a reunião acontecia. De volta ao auditório , os dois dirigentes apresentaram contrapontos às acusações, negando em todos os momentos o envolvimento. Dirceu voltou a defender a política de alianças do governo. Falou sobre mudanças na política econômica, como a redução dos juros, mas fez a ressalva que propunha o ideal, não o possível e elogiou Palocci.