Título: Reunião do CMN deve repetir meta de 4,5% para 2007
Autor: Sergio Lamucci
Fonte: Valor Econômico, 21/06/2005, Brasil, p. A4
O Conselho Monetário Nacional (CMN) se reúne na quinta-feira para definir a meta de inflação para 2007, e a expectativa de boa parte dos analistas é que a instituição fixe o alvo em 4,5%, com tolerância de 2 pontos percentuais -ou seja, os mesmos parâmetros determinados para 2006. A possibilidade de que o CMN mexa na meta do ano que vem, como propõe o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), é tida como muito improvável. Os economistas também consideram baixa a possibilidade de outras mudanças, como a ampliação do horizonte para o BC perseguir o alvo, hoje restrito ao ano-calendário, ou a adoção de medidas de inflação que excluam os preços administrados, embora não falte quem as defenda. O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, já sinalizou várias vezes que a meta de 2006 não deve ser alterada. O que o CMN vai discutir é a de 2007, disse ele no começo do mês. Além de Palocci, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, e o presidente do BC, Henrique Meirelles, fazem parte do CMN. No ano passado, quando fixou a meta para 2006, a instituição manteve os 4,5% definidos para 2005, mas reduziu o intervalo de tolerância de 2,5 para 2 pontos percentuais. Foi uma maneira de indicar uma trajetória cadente para a inflação. Dessa vez, porém, mesmo analistas tidos como mais ortodoxos não vêem como problema a repetição em 2007 do alvo e da margem de tolerância de 2006. É o caso do professor Márcio Garcia, da PUC-Rio, que considera razoável uma meta central de 4,5%. Para ele, repetir o centro da meta de 4,5% e o intervalo de tolerância para 2007 não seria um sinal de leniência com a inflação, pois ainda assim seria possível manter trajetória de queda dos índices de preços ao longo do tempo. Em 2004, a inflação foi de 7,6%. Para este ano, o mercado projeta 6,16%, acima da meta ajustada de 5,1%. O economista-chefe da Unibanco Asset Management (UAM), Alexandre Mathias, também acredita que essa é uma boa saída. Manter os 4,5% seria um reconhecimento de que a trajetória de queda da inflação em 2004 e 2005 não foi tão favorável quanto se imaginava há dois anos, principalmente devido aos choques de oferta que ocorreram nesse período, como a alta das commodities. O ex-diretor do BC Sérgio Werlang tem uma opinião mais flexível. Ele também avalia que o centro da meta de 2007 deve ser de 4,5%, mas considera que o CMN deveria ampliar a margem de tolerância de 2 para 2,5 pontos percentuais - o mesmo intervalo que vale para o alvo deste ano. "Nós tivemos muitos choques nos últimos três anos", justifica ele, lembrando que boa parte do impacto sobre a inflação nesse período veio dos preços administrados. Essa mudança, porém, só deveria valer para 2007, diz Werlang, ressaltando ser contrário a qualquer mudança para o alvo de 2006, que foi fixado no ano passado. "Mudar a meta de 2006 traria confusão, uma vez que isso causaria incertezas. Os analistas poderiam pensar: 'Será que a meta de 2007 também não vai ser alterada no ano que vem?'", afirma ele, que atualmente é diretor do Itaú. Já analistas mais críticos do regime de metas, como o professor Paulo Nogueira Batista Jr., da FGV-SP, entendem que seria possível mudar a meta de inflação para 2006, elevando-a para algo como 5% a 5,5%, e também aumentando o intervalo de tolerância de 2 para 2,5 pontos. Esses números poderiam ser usados como referência também em 2007, afirma ele, afirmando que a trajetória de queda da inflação definida para as metas foi muito ambiciosa. Para tentar cumpri-las, o BC adotou uma política monetária muito rigorosa, o que eleva o custo da dívida pública, afeta o crescimento e causa a valorização do câmbio, diz Batista Jr. Além da meta em si, há outros pontos em discussão. Um deles é que o BC passe a perseguir alguma medida do núcleo da inflação, como os que excluem os preços administrados. Werlang e Batista Jr. defendem essa estratégia, porque os preços livres - e não os administrados - é que são os diretamente afetados pela política monetária. A diferença entre os dois é que Werlang quer a mudança apenas para 2007. Mathias é contra a alteração. A inflação que afeta a vida das pessoas, diz ele, é medida pelo índice cheio. Com isso, deixar de combater a inflação das tarifas públicas seria uma má idéia. Uma outra possível alteração que conta com a simpatia da maior parte dos analistas é ampliar o horizonte do BC no combate à inflação, não se limitando ao ano-calendário. É o caso do economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A política monetária é mais eficiente para combater a inflação num prazo mais longo, de 12 a 24 meses, avalia. Garcia considera a idéia positiva, mas entende que o momento não é adequado para a mudança. Para ele, é necessário que o regime de metas de inflação tenha mais credibilidade para que esse tipo de mudança seja feito. Garcia avalia que isso requer mais tempo. "O dilema do regime é entre credibilidade e flexibilidade." É por acreditar que o CMN vai dar prioridade à primeira que a maior parte dos analistas não acredita em mudanças significativas.