Título: Um tiro que pode sair pela culatra
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 21/06/2005, Brasil, p. A6

Tem as digitais do Planalto nas articulações para realização de manifestações populares contra o "golpismo de direita" supostamente embutido nas denúncias de corrupção no PT e no governo. Em vez de relativizar, a crise política fez recrudescer entre ministros a idéia de que é preciso isolar Lula do Congresso e de tudo o que é político. "Resgatar os laços com a sociedade e com o povo", como se diz no Planalto, é legítimo. Mas é um equívoco pensar que os movimentos sociais podem ser usados como arma contra o Congresso para blindar o presidente. O tiro pode sair pela culatra. Ninguém se esquece de quando o ex-presidente Fernando Collor pediu para o povo sair às ruas de amarelo e deu preto. Os políticos mais experientes do Congresso, personagens de outras crises e CPIs momentosas, são unânimes em afirmar: não há clima para nenhum golpe, popular ou não. O que há é um governo que, como um piloto de avião inexperiente, tenta manobras radicais em meio à tempestade. Ao contrário, é preciso aguentar o tranco até a chuva passar. Problemas de corrupção ocorreram até no Banco do Vaticano, que supostamente deveria ter proteção divina, jogaram na lama o chanceler alemão Helmut Kohl e atravessaram a administração George W. Bush no caso Enron. O PT precisa entender que as denúncias contra integrantes do partido não representam ameaça à própria democracia no Brasil. Veteranos de outras crises resumem numa palavra o que o governo precisa agora: apurar com tranqüilidade, apontar culpados, dizer que, ao contrário de governos anteriores, não pretende abafar CPIs. A investigação não significa queda de governo. Partir para o tudo ou nada é um equívoco. Getúlio Vargas não cometeu o suicídio por causa da CPI da "Última Hora", mas por um ato desesperado de Gregório Fortunato. O importante para o governo, segundo caciques do Congresso dos quais setores do Planalto querem manter distância, é não fazer bobagem - tem de ter o controle da maioria na CPI, manter o poder e não tentar a curto prazo a recuperação da imagem perdida. A radicalização é um equívoco. O deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) tem tudo a ganhar porque não tem nada a perder.

Lula não tem gosto nem paciência para política

Resta saber a decisão que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomará, nos próximos dias, a respeito da articulação política do governo. A indicação da ministra Dilma Rousseff para a Casa Civil será digerida no Congresso, mas deixou um gosto amargo - ela é sabidamente avessa ao trato parlamentar. Por conta disso, inclusive, teve recusado preliminarmente um dos nomes que indicou para a Agência Nacional de Petróleo. Há no círculo próximo a Lula quem defenda a extinção do Ministério da Coordenação Política, que passaria a ser exercitada diretamente pelos líderes no Congresso. Mesmo um presidente como Fernando Henrique Cardoso, que tratava diretamente com deputados e senadores, ao indicar um técnico (Pedro Parente) para a Casa Civil, no segundo mandato, manteve políticos na Secretaria Geral: Aloysio Nunes Ferreira, Arthur Virgílio e Euclides Scalco, pela ordem. Lula não tem nem o gosto nem a paciência que Fernando Henrique tinha para lidar com os políticos. E o presidente da República precisa de um anteparo nas relações com o Congresso, do contrário as demandas recairão diretamente sobre ele. Desde as cobranças mais comezinhas, como a nomeação ou a verba orçamentária prometida mas não cumprida, a decisões de Estado como a demarcação da reserva Raposa Serra do Sol, que colocou a bancada de Roraima em pé de guerra com o governo. E não fará outra coisa a não ser atender deputados e senadores. Parece vigorar no Palácio a crença de que não se tratando do assunto - as investigações de corrupção no PT e no governo abertas no Congresso -, o problema não chega ao Planalto. Antes durante e até depois da criação da CPI dos Correios boa parte dos auxiliares próximos do presidente defendia que o Planalto não deveria tratar do assunto - seria levar a crise para dentro do governo, como se ela já não houvesse lá instalado morada. É mais fácil e agradável para o governo ouvir o refrão "Um, dois três, Lula outra vez" entoado semana passada para o presidente por integrantes de movimentos por moradias na criação do Fundo de Moradia Popular. "Isso a gente conversa depois", respondeu o presidente da República.