Título: Escolhida tem fama de inflexível
Autor: Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 21/06/2005, Política, p. A8

Com um perfil técnico bem diferente do ex-ministro José Dirceu, Dilma Rousseff tem fama de "durona" e de "trator" entre os executivos do setor elétrico e políticos - tanto os aliados do governo quanto oposicionistas. Eles acreditam que Dilma dará eficiência administrativa ao governo, mas que há um alto risco de criar dificuldades políticas no Congresso e na Esplanada, com os demais ministérios. "Ela pode, potencialmente, desagregar aliados ainda mais do que Dirceu", disse um líder governista. Nos dois anos e meio em que comandou a pasta de Minas e Energia, Dilma mudou o modelo do setor elétrico que estava em curso, iniciado com as privatizações de Fernando Henrique Cardoso. No modelo elaborado por ela, as estatais ganharam poder e voltaram a investir na oferta de energia, apesar das inúmeras críticas dos investidores privados, que alegavam competição desleal. Em contrapartida as distribuidoras elétricas, maioria privadas, passaram a ser controladas pelo governo. O nome da ministra é associado no meio político diretamente ao envio ao Congresso do novo modelo do setor elétrico através de medida provisória, em lugar de projeto de lei, o que ficou conhecido como o seu primeiro grande enfrentamento com o Legislativo. Ela também é lembrada, sobretudo pelo PMDB, por barrar indicações políticas para estatais, como Eletronorte e Eletronuclear, o que levou a Comissão de Infra-estrutura do Senado a derrubar a indicação de José Fantine para a presidência da Agência Nacional de Petróleo (ANP). No seu enfrentamento com o Congresso, ela não enviou um novo nome ainda, fazendo saber aos deputados que estava dando tempo para repetir a indicação de Fantine. Dilma também é criticada por parlamentares especialistas em Minas e Energia e regulação por ter tomado a frente da batalha do governo petista contra a autonomia das agências reguladoras. No ministério, o embate mais forte da ministra se deu contra a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Sempre divergiram sobre o andamento das licenças ambientais para a construção de hidrelétricas. Em uma das fases mais tensas o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, precisou intervir. Ela e Dirceu, por sua vez, também divergiam na avaliação dos rumos do programa nuclear brasileiro. "Ela é decidida, boa administradora, impositiva e intransigente, faz parte do grupo do PT que despreza e não acredita na relação saudável entre governo e Congresso", afirmou um líder aliado no Senado. "Dilma na Casa Civil é como um elefante em uma loja de cristais, do ponto de vista de articulação", afirmou um deputado também da base governista. A avaliação, inclusive no próprio PT, é que nunca Dilma poderia ser ministra-chefe da Casa Civil mesmo cuidando apenas das questões técnicas, pois ainda assim a função exige conversas com governadores, prefeitos, políticos, em torno dos projetos. "Para nós, está claro que com ela na Casa Civil o presidente Lula vai reformular a pasta, que tende a ficar muito similar ao que era a Casa Civil de Fernando Henrique Cardoso com Pedro Parente ou Clóvis Carvalho", disse um dirigente do partido. A oposição não vê a situação de forma tão simples. "Por mais que se defina que a Casa Civil será técnica ela sempre terá um conteúdo político, de negociação, que não é a especialidade de Dilma", disse um dirigente tucano. Os aliados do PT no governo, contudo, são os que mais se preocupam com a postura que Dilma pode tomar. "Dilma é impositiva e o presidente é cordato, negociador. Nesse cenário, acredito que poderá haver muito mais choques entre Lula e Dilma que entre o presidente e José Dirceu", afirmou um aliado do governo. "Temos que lembrar que em uma das crises entre o Parlamento e Dilma o presidente Lula prometeu ao PMDB que a ministra voltaria atrás e atenderia aos pedidos de nomeação da sigla na Eletronorte, coisa que nunca ocorreu", afirmou um parlamentar do partido A preocupação entre o empresariado do setor elétrico, é de que a ida de Dilma para a Casa Civil acabe se tornando um empecilho para a conclusão do novo modelo de energia no país. Um executivo de uma grande empresa do setor elétrico com volumosos investimentos no Brasil afirma que gostaria de ver Dilma no comando das Minas e Energia até que o novo modelo do setor elétrico seja totalmente implantado e testado. "Com essa indicação, temo pelo setor. O atual desenho elétrico foi forjado pela ministra e ninguém melhor do que ela para colocá-lo em prática. Como ainda falta um passo importante para a implantação, que é o leilão de energia nova, nós gostaríamos que ela colocasse em prática o modelo que desenhou", afirma o executivo, que pediu para não ser identificado. A avaliação do economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIWE) é que a gestão de Dilma no ministério foi marcada por uma postura nacionalista e centralizadora. Também vazaram e se tornaram alvo de brincadeiras a forma quase enérgica como conduzia reuniões com executivos das estatais do setor elétrico. Alguns desafetos acabaram saindo do governo, como o físico Luis Pinguelli Rosa, que presidiu a Eletrobrás. "A própria reforma que ela promoveu no setor foi para centralizar tudo na mão dela, tirando poderes da Petrobras e das agências reguladoras", afirma Pires, explicando que se referia à Agência Nacional do Petróleo (ANP) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Ele acha que a postura de Dilma "melhorou nos últimos tempos", mas não foi capaz de atrair investimentos novos. O economista cita como exemplo das incertezas trazidas pelo novo modelo do setor a queda dos ingressos de investimentos estrangeiros diretos no Brasil em energia elétrica, que foi de 88% entre o primeiro quadrimestre do ano passado comparada com o mesmo período de 2005. Na categoria eletricidade, gás e água quente os investimentos estrangeiros caíram 88%, de US$ 544 milhões para US$ 65 milhões no período, segundo o BC, resultado que foi minimizado um pouco pelo aumento de 20,3% nos investimentos diretos em extração de petróleo e serviços, que aumentou de US$ 64 milhões para US$ 77 milhões. Dilma é economista, com doutorado em Teoria Econômica pela Unicamp. Foi secretária estadual de Energia, Minas e Comunicação por duas vezes no Rio Grande do Sul e também secretária da Fazenda em Porto Alegre. Ela foi presa política em São Paulo em 1970, quando atuava na guerrilha pelas organizações Política Operária (Polop), Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares (VAR-Palmares). Nesta última, coordenou a operação de sequestro do cofre do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, na casa de Ana Capriglione, tida como sua amante. A ação durou 28 minutos e rendeu US$ 2,5 milhões.