Título: Bancos gastam 61% a mais para evitar problema
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 21/06/2005, Finanças, p. C1
Os bancos estão gastando mais para combater a lavagem de dinheiro, crime que movimenta entre US$ 500 bilhões e US$ 1 trilhão por ano em todo o mundo. Uma pesquisa mundial da KPMG obtida com exclusividade pelo Valor mostra que os gastos dos bancos aumentaram 61% nos últimos 3 anos. A América Latina foi a região onde estes investimentos mais cresceram, com alta de 73%. Já o Oriente Médio ficou com uma das taxas mais baixas, com alta de 64%. Outra conclusão é que os gastos dos bancos devem continuar crescendo. Em média, devem subir 43% nos próximos 3 anos. Na América Latina, o aumento deve ser de 55%. A pesquisa da KPMG ouviu 209 bancos em 41 países, incluindo o Brasil (onde dois grandes bancos responderam o questionário). O levantamento foi feito em 2004, mas os resultados só ficaram prontos este ano. Para o sócio da KPMG, Carlos Alberto Gatti, mais do que a preocupação com a regulamentação, os bancos estão apreensivos com a preservação de sua imagem e de seus executivos. "Os bancos não querem se ver envolvidos em noticiários de crimes de lavagem de dinheiro e ter a imagem arranhada", disse. Para combater estes crimes, os bancos investem, principalmente, na tecnologia para monitor as transações dos clientes e no treinamento dos funcionários. Estes são os dois itens que consomem a maior parte dos investimentos, segundo a pesquisa. Para Gatti, muito ainda precisa ser feito para se combater a lavagem de dinheiro. Ele cita, como exemplo, a monitoração das transações. "O banco identifica uma operação irregular somente depois que ela foi feita, quando recursos da instituição já foram comprometidos", destaca. O ideal, diz, é que se identifiquem potenciais transações de lavagem de dinheiro antes que elas sejam feitas. "O ideal é que se trabalhe preventivamente." Outro "erro" dos bancos é que o treinamento dos funcionários, na maioria das vezes, é feita com bases nos crimes existentes. "O problemas é que os fraudadores sempre estão procurando inovação", diz. Normalmente, o dinheiro que é "lavado" vem do tráfico de drogas ou armas, guerrilhas, sequestros e, mais recentemente, de organizações terroristas. Além destes, há os políticos que se apropriam de recursos públicos e tentam "lavar" esse dinheiro pelos bancos. Por causa disso, a pesquisa mostra que muitos bancos estão considerando a "exposição política" do cliente na hora de aprovar a abertura de uma conta. Quanto maior esta exposição, maior o risco que o cliente se envolva em alguma atividade de lavagem de dinheiro. Normalmente, são clientes que exercem atividade pública, como ministros, juízes e deputados. Entre os bancos ouvidos, 55% disseram levar em conta esta "exposição". O curioso é que na América Latina este percentual sobe para 80% dos bancos, de longe a maior média mundial. Na Ásia, por exemplo, apenas 32% dos bancos fazem este tipo de abordagem; na Europa Ocidental, são 44%. A pesquisa mostra um aumento de casos que podem ser considerados como lavagem de dinheiro. Entre os bancos ouvidos, 36% disseram que o volume de atividades suspeitas reportadas "aumentou substancialmente" nos últimos três anos; outros 31% notaram "algum aumento" e só 3% relataram "alguma diminuição". Sobre a legislação, boa parte dos bancos (41%) disse que ela é "aceitável", mas "precisa ser significativamente aprimorada" para combater a lavagem de dinheiro de forma mais eficiente. Já 37% disseram que as normas são "aceitáveis" e "eficientes". Outros 7% disseram que as normas atuais são "onerosas" e "não são efetivas".