Título: Movimentos sociais entregam Carta a Lula
Autor: Taciana Collet
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2005, Política, p. A6
Ao entregar ontem a "Carta ao Povo Brasileiro" ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, os movimentos sociais conseguiram abrir um canal de diálogo com o governo para discutir a política econômica. Foi definido um calendário de discussões - o primeiro encontro será dentro de um mês e deve contar com a participação do próprio Lula e do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. O ministro Luiz Dulci ficou responsável pela organização da reunião. Os representantes das organizações sociais pediram a audiência ontem para "ouvir da boca do presidente" as explicações sobre as denúncias de corrupção que atingem o governo e o PT. Assinada por 41 movimentos sociais, a carta, divulgada na terça-feira, pede a apuração rigorosa dos fatos denunciados, acusa as elites brasileiras de iniciarem uma campanha para desmoralizar o presidente de olho nas eleições de 2006 e se posicionam contra qualquer tentativa de "desestabilização" do governo patrocinada por setores "conservadores e antidemocráticos". Mas o texto também tece duras críticas à política econômica. "O presidente nos disse que ficou feliz de ver que poderia contar com amigos e companheiros nessa hora", contou o secretário nacional de comunicação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Antonio Carlos Spis. "Mas não tratem esse encontro como um clube de amigos porque cobramos mudanças na política econômica. E o presidente nos disse que vai ser muito difícil convencer o Palocci, mas abrir esse espaço de debate já é um avanço." Com a avaliação de que pouca coisa mudou neste governo em comparação ao anterior na área econômica, representantes da CUT, do Movimento dos Sem-Terra, e da Marcha de Mulheres fizeram cobranças e repetiram o que está escrito no manifesto. Eles avaliam que, diante da crise política, o governo Lula tem a opção de retomar o projeto pelo qual foi eleito, afastando-se das "reformas neoliberais". "A sociedade não suporta mais tamanhas taxas de juros sob o pretexto de combater a inflação", diz o documento que leva o mesmo nome do texto divulgado pelo PT às vésperas das eleições para acalmar o mercado financeiro. "A sociedade não sustenta a manutenção de um superávit primário que apenas engorda os bancos." Apesar de o documento pedir a apuração de todas as denúncias de corrupção, dirigentes de entidades como a CUT e o MST avaliam que são infundadas as acusações do deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ). "É uma campanha visando enfraquecer o governo e o presidente Lula para derrubá-lo ou obrigá-lo a aprofundar a atual política econômica e as reformas neoliberais", diz a carta.