Título: Comissão vira palco de disputa entre partidos
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2005, Política, p. A8
A CPI dos Correios já tornou-se palco de uma guerra partidária. "Essa CPI vai explodir o PMDB", comentou um integrante da comissão. A maior parte dos dirigentes dos Correios neste governo foi indicada pelos pemedebistas, a começar pelo presidente afastado da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), João Henrique de Almeida, indicado pelo presidente da legenda, Michel Temer. A oposição, especialmente o PFL, tem como alvo preferencial os dirigentes petistas Sílvio Pereira (secretário-geral) e Delúbio Soares (tesoureiro). Já os petistas prometem não medir esforços para deixar claro que a denúncia central que levou à instalação da CPI é um suposto esquema de corrupção envolvendo o PTB do deputado Roberto Jefferson. O PTB indicou para a diretoria de Administração Antônio Ozório, já afastado. No primeiro depoimento colhido pela CPI, do ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material da ECT, Maurício Marinho, a estratégia dos parlamentares ficou transparente. Os oposicionistas conduziram as perguntas para que Marinho deixasse claro que as diretorias sobre as quais recaem as maiores suspeitas de irregularidades - Tecnologia e Operações - eram ocupadas por pessoas indicadas pelo PT, mais especificamente por Sílvio Pereira. Os parlamentares do PT passaram horas tentando desmascarar a afirmação de Marinho, que negava ligações com o PTB e Roberto Jefferson. Enquanto oposicionistas e governistas perseguiam-se, pemedebistas evitavam alarde. Segundo Marinho, o PMDB indicou, além da presidência, as seguintes diretorias: Comercial (pelo senador Hélio Costa), Recursos Humanos (pelo senador Ney Suassuna) e Departamento Financeiro (pelo ministro Eunício Oliveira). "Vossa senhoria é uma ilha nos Correios. Um técnico cercado de políticos por todos os lados", ironizou o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Ele arrancou de Marinho a confirmação de que sua indicação foi feita pelo deputado José Chaves, do PTB de Pernambuco. Marinho confirmou ainda uma velha amizade com Roberto Salmeron, ex-presidente da Eletronorte deste governo e ex-vice-presidente dos Correios na era Collor. Apesar de negar a proximidade com Roberto Jefferson, Marinho confirmou que se encontrou com ele em pelo menos cinco vezes. Viram-se pela primeira vez no aeroporto de Brasília, quando foram apresentados por Salmeron. No ano passado, voltaram a se encontrar no aniversário do deputado. O ex-chefe dos Correios foi obrigado também a confirmar que esteve na sede do PTB em Brasília com Antônio Ozório e na liderança do partido na Câmara, mas sustentou que não participou de reuniões partidárias. Todos estiveram juntos, ainda, em um restaurante em Brasília recentemente. Marinho deu mais detalhes sobre sua ligação com Marcus Vinícius Ferreira, genro de Jefferson. Foi por recomendação dele que recebeu um dos empresários que aparece na gravação em que recebe R$ 3 mil. Foi também o genro de Jefferson que pediu a Marinho que recebesse um empresário da Canon, derrotado numa licitação na ECT. (MLD)