Título: Deputada tucana confirma proposta feita por Mabel
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2005, Política, p. A8
A deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO), confirmou ontem ao Conselho de Ética da Câmara que recebeu, do deputado Sandro Mabel (PL-GO), líder do partido, a proposta de pagamento de R$ 30 mil por mês, e R$ 1 milhão, a títulos de luvas, ao final de 2004, para trocar de legenda. Sandro Mabel negou, também em depoimento ao Conselho de Ética, que tenha oferecido R$ 1 milhão para que a deputada Raquel Teixeira (PSDB-GO) migrasse para seu partido, mas confirmou parte das informações prestadas no depoimento da tucana. "Nem tudo o que ela disse é mentira", afirmou. O líder do PL também refutou todas as acusações feitas pelo presidente licenciado do PTB, Roberto Jefferson, de que ele estaria envolvido no recebimento do mensalão, supostamente pago pelo PT para que um grupo de deputados votassem com o governo. O primeiro depoimento do dia de ontem foi o de Raquel. Ela confirmou que foi procurada por Mabel em 18 de fevereiro de 2004 para migrar de partido e que, em troca, além de uma projeção política, ele ofereceu R$ 30 mil por mês, R$ 1 milhão de luvas no fim do ano e que, dependendo das negociações em que estava envolvido, a quantia mensal poderia subir para R$ 50 mil. "No começo da proposta me senti lisonjeada, pois ele me ofereceu espaço no PL, disse que eu viajaria o país defendendo minhas propostas de educação, mas depois fez a proposta financeira que me deixou perplexa", afirmou a deputada. Ela narrou que procurou em março o governador goiano. Ele comentou o fato com alguns deputados e, em maio, falou do assunto diretamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Depois disso, Marconi Perillo procurou Mabel para pedir esclarecimentos. Mabel, por sua vez, teria encontrado novamente com Raquel e, visivelmente irritado, falou que a conversa da filiação no PL era entre os dois e que ela não precisaria conversar com o governador. Em seu depoimento, Mabel confirmou que procurou Raquel para propor a troca de partido, mas que nunca ofereceu dinheiro. Ele disse, contudo, que ofereceu a ela espaço no partido, a indicação de dois membros na direção da legenda no Estado e facilidades para a liberação de emendas parlamentares no orçamento. Ele confirmou, contudo, que foi procurado por Perillo. "Ele estava nervoso, me disse que eu não poderia oferecer dinheiro para a deputada mudar de partido. Neguei isso. Ele disse que ela havia garantido que isso tinha ocorrido. Então propus que nós dois ficássemos frente-a-frente, mas daí o governador disse que isso não era necessário, que ele acreditava em mim", disse. Durante os depoimentos, o governador de Goiás enviou um fax ao Conselho de Ética informando que estava disposto a depor e que confirmava que ouvira toda a história de Raquel. Raquel teve de assumir, em seu depoimento, que mesmo sendo secretária do Estado de Goiás desde 21 de janeiro, ainda ocupa o apartamento funcional de deputada. "Não sou a primeira nem a única a usar um apartamento além do tempo, foi um processo natural, por questões familiares, mas estou me mudando nesta semana", afirmou. Na outra frente de investigação da Câmara, os deputados da Comissão de Sindicância da Corregedoria ouviram, em depoimento secreto, o deputado Roberto Jefferson, que confirmou todas as denúncias sobre o mensalão já feitas. Hoje será a vez da sindicância ouvir o ex-ministro da Casa Civil, deputado José Dirceu (PT-SP). O depoimento também será fechado. O Congresso também deu um passo para criar outra investigação: o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) anunciou que na próxima quarta-feira fará a leitura do requerimento que cria a Comissão Mista Parlamentar de Inquérito (CPI) do Mensalão.