Título: Marinho lança suspeita generalizada sobre contratos da ECT
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2005, Política, p. A8

O primeiro depoimento colhido pela CPI dos Correios colocou sob suspeita vários setores da estatal e provocou questionamentos sobre uma provável fragilidade no esquema de licitações, na medida em que todos os postos-chave da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) foram loteados entre três partidos políticos da base de sustentação do atual governo - PMDB, PTB e PT -, que supostamente teriam ingerência em contratos da empresa. Foram essas as indicações para apuração feitas pelo ex-chefe do departamento de Contratação e Aquisição de Material dos Correios, Maurício Marinho, ontem, à CPI. A amplitude de suspeitas levantadas por Marinho - sem que fossem apresentadas provas - levaram o deputado federal Gustavo Fruet (PSDB-RS) a solicitar que a CPI peça a suspensão de todos os processos licitatórios em andamento na ECT e notifique a presidência da estatal das denúncias feitas. Funcionário dos Correios há 28 anos, Marinho admitiu que alguns desses contratos foram firmados em governos anteriores. Marinho, que é indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva e fraude em licitações, falou à CPI na condição de investigado, e não como testemunha. Portanto, não prestou juramento. Ontem, já no segundo dia de depoimento, ele mudou repentinamente a estratégia após seu advogado, Sebastião Coelho da Silva, ameaçar não mais representá-lo pelo fato de ele não estar falando a verdade. A decisão do advogado foi anunciada na CPI pela senadora Heloísa Helena (PSOL-AL). A sessão chegou a ser suspensa para reunião dos advogados com o cliente. Para os governistas, tratou-se de uma encenação, feita com o aval da oposição. O fato é que, a partir de então, Maurício Marinho falou. Antes, pediu proteção policial. "Peço pelo amor de deus pela segurança da minha família", disse, contando ter sido ameaçado anteriormente. Fez acusações, ilações, insinuações contra todos os departamentos da ECT, incluindo a presidência da estatal - indicada pelo PMDB. Preservou apenas o seu próprio departamento, o de Administração (que era controlado por Antônio Ozório, do PTB). Marinho provocou a ira dos parlamentares ao tentar se desvincular do PTB e negar tudo o que havia dito em gravação em vídeo na qual foi flagrado recebendo R$ 3 mil de dois interlocutores que se apresentaram como empresários. Na fita de quase duas horas, ele fala detalhadamente de esquemas para fraudar licitações, sintonia entre diferentes diretorias, mostra intimidade com o deputado federal Roberto Jefferson (RJ) e demonstra ter profundo conhecimento sobre todas as áreas dos Correios. Sobre o dinheiro recebido, foi evasivo e disse se tratar de um ato impensado. O alvo central de Maurício Marinho foi o PT. Ele listou uma série de contratos, praticamente todos ligados à Diretoria de Tecnologia da ECT. "É essa (diretoria) que dizem que é ligada ao doutor Sílvio (Sílvio Pereira, secretário-geral do PT)", disse Marinho. Quem exercia o cargo de diretor era Eduardo Medeiros. Marinho afirmou que "estava certo" que Medeiros seria substituído pelo ex-deputado estadual Ezequiel Ferreira de Souza (PTB), indicado pelo líder do governo no Congresso, senador Fernando Bezerra (PTB-RN). Quando perguntado por este por que não foi, explicou que um dos interlocutores que aparece na fita lhe disse que o cargo ficaria com o PMDB, cedido para o Robinson Khoury, suplente do senador Ney Suassuna (PB), líder do partido. O pemedebista já tinha feito indicação para a Diretoria de Recursos Humanos. Ao sugerir que os parlamentares da CPI investiguem os contratos de publicidade feitos entre os Correios e a agência SMP&B, citou o nome do ministro Luiz Gushiken (Secretaria De Comunicação e Gestão Estratégica do Governo), que supervisiona os contratos de publicidade com estatais. Marinho disse que sua "função básica" nos Correios era atender fornecedores. "Todos os fornecedores com indicação parlamentar seriam atendidos", afirmou. Disse ter uma agenda com registro de todos esses encontros, que está em poder do Ministério Público Federal. A CPI solicitou a agenda e o resultado da quebra dos sigilos telefônico, bancário e fiscal, que também já estão no Ministério Público. Marinho recomendou que a CPI investigue contratos, entre eles de seguro, terceirizados, manutenção, obras, marketing, transporte e franquias dos Correios. Disse que muitos dos titulares das 1.560 agências franqueadas são "laranjas" de deputados e senadores.