Título: Interventores acusam proprietário da Vasp de desviar bens da companhia
Autor: Vanessa Adachi
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2005, Empresas &, p. B4

A comissão de intervenção da Vasp informou ontem que a empresa de aviação está sendo esvaziada por seu presidente, Wagner Canhedo. De acordo com a comissão, vários bens da companhia área "desapareceram ou foram misteriosamente roubados nos últimos meses". Ontem, o delegado Marco Antonio de Paula Santos, de São Bernardo, recebeu novas denúncias de roubo de mercadorias da Vasp. No entanto, ao chegar num galpão no bairro da Penha, na zona Leste da cidade, a polícia verificou que os materiais haviam sido tirados da Vasp por meio de leilão. "Não havia irregularidades. Os proprietários da mercadoria comprovaram que arremataram os produtos em leilão de bens da Vasp que já haviam sido penhorados", disse o delegado. No galpão, estavam dez caminhões, seis tratores, cinco vans, poltronas de aeronaves, esteiras rolantes, peças de aeronaves e guindastes da Vasp. Um outro galpão tinha sido localizado na terça-feira em São Bernardo do Campo, no ABC, região da Grande São Paulo. Nele estavam escondidas peças, equipamentos, veículos e até uma turbina de Boeing 737 todos pertencentes à Vasp. Os equipamentos, cujo valor foi estimado pela polícia em aproximadamente R$ 8 milhões, teriam sido furtados de instalações da empresa em Congonhas, na zona sul da cidade, muitos deles de áreas que já haviam sido lacradas por determinação da Justiça. Preso em flagrante, o dono do depósito, Anésio Bovolon Júnior, disse que guardava os equipamentos a pedido de César Canhedo, diretor e filho do proprietário da Vasp, o empresário Wagner Canhedo. Embora Bovolon tenha negado que fosse vender os equipamentos desviados, muitas das peças e veículos encontrados tinham a logomarca da Vasp já encoberta por tinta ou simplesmente raspada. O dono do depósito declarou para a polícia que havia transportado o material encontrado no local a pedido da Vasp. Além de estar sob intervenção, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) determinou no início deste mês a penhora de bens da companhia aérea no valor de R$ 75 milhões para quitação das pendências trabalhistas. De acordo com a promotora Vivian Mattos, do Ministério Público do Trabalho (MPT), o desvio de bens caracteriza "fraude de execução", que se for comprovada pode levar o dono da Vasp à prisão, como depositário infiel. A Vasp divulgou ontem uma nota negando que existam irregularidades nos equipamentos aeronáuticos encontrados no galpão localizado no ABC paulista. Segundo o comunicado, antes da intervenção da companhia aérea, com a interrupção dos vôos no aeroporto de Congonhas, foi determinada a remessa de parte dos equipamentos aeronáuticos para o aeroporto de Guarulhos, onde mantinham-se os vôos cargueiros, a fim de dar continuidade às atividades da empresa. Na ocasião, a Vasp diz ter contratado os serviços de Bovolon para que transportasse os equipamentos para o aeroporto internacional de Guarulhos. Diante da decretação da intervenção e o afastamento de toda a diretoria da companhia, o dono do depósito tomou a decisão, segundo a Vasp, de guardar os equipamentos em sua propriedade, sem conseguir manter contato com os dirigentes afastados, enquanto aguardava orientações por parte dos interventores. Segundo a nota do grupo Canhedo, a empresa "lamenta que esse episódio, que transcorreu de forma normal, perfeitamente admissível e legal, esteja agora sendo explorado em detrimento da honradez e da lisura do senhor César Canhedo, à época vice-presidente administrativo e financeiro da companhia, bem como afetando, igualmente, a honesta figura do empresário paulistano Anésio Bovolon Júnior, meramente por um serviço prestado a amigos, com a máxima boa vontade e lisura". Mas a comissão de intervenção da Vasp informou ontem que vários bens e produtos da companhia aérea sumiram nos últimos meses. "Encontramos cofres arrombados na empresa, cheques em branco e preenchidos numa das salas. Vários computadores foram roubados", disse Devair Sorza, que representa os aeronautas na comissão interventora. (Com agências de notícias)