Título: Lula fará contatos com parlamentares para serenar base
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2004, Política, p. A-4

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai retomar a política de realizar jantares com os parlamentares dos partidos aliados a seu governo. Essa é a primeira medida anunciada para tentar trazer paz à sustentação parlamentar do governo, que enfrenta um período de turbulência, motivada principalmente pela proposta de reeleição dos presidentes da Câmara e do Senado e pela falta de liberação de verbas do orçamento para as emendas de parlamentares. Lula já participou recentemente de um jantar com os parlamentares do PTB, o que gerou grande ciumeira entre os demais partidos aliados. Ainda não está acertado a ordem dos jantares, porém o PMDB - maior partido em obstrução na Câmara com 77 deputados e ator central nas discussões da reeleição no Parlamento -, pode ser um dos primeiros a se reunir com o presidente Lula. Não há previsão das datas de realização dos jantares. O anúncio da retomada dos jantares com o presidente foi anunciada ontem pelo ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo, que se reuniu nesta quinta-feira com o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo (PT-SP) e com o líder do governo na casa, Professor Luizinho (PT-SP), para tentar resolver as crises na base aliada do governo na casa, que impedem votação das 15 medidas provisórias (MPs) que travam a análise de alguns projetos de lei considerados prioritários pelo governo na Câmara, como a Lei de Falências. "Estamos buscando os caminhos que permitam a desobstrução da pauta", disse o ministro. Os motivos dos impasses dos parlamentares da base aliada de Lula com o governo não se restringem à reeleição da Câmara e do Senado e a falta de liberação de emendas orçamentárias. Há alguns deputados que reclamam da falta de atenção aos partidos pequenos na discussão dos projetos que tramitam no Parlamento. Outra fonte de descontentamento dos deputados é a demasiada proximidade que o PTB usufrui hoje com o governo, sendo considerada por muitos membros do governo a sigla preferencial entre os aliados, excluindo-se o PT. Nesta quinta-feira se repetiu o que ocorreu na noite anterior, quando nenhuma MP foi votada. Na quarta-feira, o governo sofreu dois importantes reveses: a obstrução das votações por parte do PPS e do PMDB, ambos da base de sustentação de Lula. O PPS se motivou a orientar seus 21 deputados a não registrarem presença no plenário devido aos excessos que existem atualmente nas MP, embora muitos acreditam que isso é uma sinalização do início do rompimento formal do partido presidido pelo deputado Roberto Freire (PE) com o governo Lula. O ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, estaria de saída do partido para permanecer no governo. No PMDB o motivo da discórdia é a falta da liberação de verbas orçamentárias para as emendas dos deputados e a vontade do governo votar a Emenda Constitucional que permite a reeleição na presidência da Câmara e do Senado. O principal opositor da reeleição é o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que sonha em presidir o Congresso, assumido o posto de José Sarney (PMDB-AP). Parlamentares ligados ao governo não imaginavam que continuava tão forte a influência de Renan sobre os deputados. Apesar do clima de guerra dentro da base aliada na Câmara, alguns líderes governistas comemoram o atual momento. "Se comparamos o que conseguimos votar até o momento - quatro MPs na Câmara e a Lei de Biossegurança no Senado - estamos melhores que nos outros anos eleitorais", afirmou Aldo. O líder do governo na Câmara, Professor Luizinho, já não tem esperanças de votar as MPs que trancam a pauta na semana que vem, véspera das eleições, acreditando que o ritmo da casa só volte ao normal na semana de 9 de novembro, após o segundo turno das eleições e do feriado de finados. Até lá, entretanto, novas MPs trancarão as votações. No dia 12 de novembro serão 22 MPs que estarão com prioridade de votação.