Título: O presidente reage, o PT ainda patina
Autor: Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2005, Política, p. A8

Enquanto o governo vai, aos poucos, procurando um rumo para retomar seu curso, o PT não consegue sequer imaginar como sair da crise que, na sua face partidária, só faz se aprofundar. A reorganização administrativa e a reforma do Ministério têm tudo para se tornarem uma realidade a emergir a partir da próxima semana e ao longo de um período que pode ser de até um mês. São essas iniciativas que constituem a reação do presidente da qual se esperam resultados, não essa bobagem de atribuir tudo, do mensalão à corrupção nas estatais, a golpe da oposição. O PT, não, apresenta-se sem saídas, sem iniciativa, e em um momento como este ainda se debate na luta interna, onde esgota suas forças e se imobiliza pela falta de idéias sobre o que fazer para se recompor. A primeira tarefa atribuída à ministra chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, foi a de examinar a estrutura do governo para formular, em regime de urgência, um projeto de extinção de 4 ou 5 ministérios, de junções de secretarias com ministérios afins, de eliminação de cargos e enxugamento da máquina que, a começar pelo seu novo gabinete de trabalho, está desnecessariamente inchada. Nesta fase de reorganização do governo, está prevista a "extinção" da estrutura de articulação política na Presidência da República. Como o presidente estava decidido, até ontem, a fazer o gesto, reivindicado pelo PT com insistência, de demitir o ministro Aldo Rebelo, a degola ficaria menos traumática se acompanhada da supressão do ministério da articulação política que, de resto, não existe. O articulador trabalha assessorado por dois ou três servidores e não gasta sequer espaço físico cobiçável. Para tirar Rebelo, porém, o governo está decidido a suprimir este mini gabinete e, evitando críticas ao isolamento político em que ficaria o presidente, deixaria a atividade de relações com o Congresso, governadores e prefeitos, ser absorvida por alguma das estruturas da Presidência onde haja um ministro com perfil para a função. Figurino que só cabe em uma pessoa das que lá estão: o secretário executivo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, ministro Jaques Wagner. Se resolver não dispensar Aldo Rebelo, o que ontem era ainda uma hipótese, embora remota, o "ministério" da articulação também fica na estrutura da Presidência. Depois das estruturas, as pessoas. As trocas de ministros serão feitas segundo um padrão. Todo o ministério terá que ficar no cargo até o fim do mandato do presidente Lula. Desta forma, o modelo em questão não admitirá a permanência de ministros que devam se desincompatibilizar em abril do ano que vem para disputar eleições. Sem exceções, pois, como explicou um político informado sobre os estudos, "este critério tem que ter um certo grau de universalidade, ou então não pode ser aplicado a ninguém".

Missão da Dilma é refundar o governo

Até ontem, era desta forma que esses caminhos estavam traçados. Havia o presidente decidido, também, que nada mais acontecerá esta semana, esgotando-se as providências na demissão de José Dirceu e nomeação de Dilma Rousseff para a Casa Civil, com um substituto interino no Ministério das Minas e Energia. Na próxima semana, contudo, depois de uma primeira análise a ser feita pela nova chefe da Casa Civil, e concluídas as conversas com o PMDB, as transformações, tanto administrativas, quanto de ação política, terão que começar a ser feitas. "Tudo vai mudar: a feição do governo, o seu funcionamento e a operação política", definiu um dirigente com acesso ao debate, não sem antes ressalvar que esta era a "vontade política" de ontem, nada impedindo que sofra alterações ao longo do processo, como é da natureza do presidente Lula. Inicia-se, assim, a reconstrução do governo e da sua imagem, restabelece-se a sua responsabilidade institucional, com o que se espera mudar a qualidade da gestão e dos resultados. Uma realidade diferente de governo, agora sem a presença de José Dirceu. Estas resoluções de vida nova incluem a definição de uma agenda mínima de trabalho para chegar a 2006 com projetos em andamento. A depender da conquista do PMDB, e da qualidade dessa aliança, o governo acredita que terá condições de chegar bem à campanha da reeleição. São atitudes que podem, segundo as análises, levar a resultados concretos. Numa comparação à reação do presidente em momentos anteriores de crise, inclusive envolvendo seu ex-braço direito, Lula, nesta avaliação, estaria agindo de forma diferente. "Nas primeiras crises, o presidente quis encontrar soluções dentro do governo. Pode-se dizer agora que Lula deu dois passos à frente do procênio", explicou um formulador do seu partido. Com o PT o cenário é adverso. Um partido que não havia ainda se adaptado à transposição de um mundo de 23 anos na oposição para o exercício do poder total, passou, desde a eclosão da atual crise, a viver seu pior momento: dirigentes desestabilizados por denúncias de corrupção, divergências e falta de reação que só fazem aumentar as suspeitas. Começa a crescer, dentro do próprio PT, o medo de que haja verdades embutidas no que até agora a maioria pensava ser difamação. Passou-se a temer que apareçam provas de que não se tratam de calúnias. Vem surgindo, nas conversas dos grupos menos envolvidos emocionalmente com as denúncias, o horror à verossimilhança do que a maioria confiava serem boatos. Neste momento dramático, nada faz o PT, a não ser dividir-se mais. Lula, é visto como Presidente da República de uma facção, o campo majoritário. Este, não cede espaço, nem temporário, à formação de uma direção compartilhada, mesmo que a atual esteja atingida em sua credibilidade. A esquerda do partido, na sua vez, não quer correr riscos, e aproveita para tirar vantagem, atribuindo a debacle às opções da maioria que, ao entrar no jogo, se deixou contaminar por ele. Os intelectuais, recolheram-se, como em sobressalto com o fantasma das provas. A crise aprofundou a principal característica do PT e seu defeito mais destrutivo: o de ser o partido da luta interna.