Título: Brasileiras disputam corredor até o Peru
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2005, Empresas &, p. B10

Transporte Obra de US$ 810 milhões atrai empreiteiras como Odebrecht, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão

As construtoras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e Camargo Corrêa estão disputando com empresas do Peru, Suécia, México e Equador o projeto de construção de um eixo rodoviário de mil quilômetros de extensão ligando o Acre, no Brasil, a três portos peruanos no Oceano Pacífico: San Juan, Matarani e Ilo. Os ganhadores da licitação, realizada em regime de concessão, serão conhecidos amanhã. Batizada de Corredor Inter-Oceânico Sul - Peru-Brasil, a obra exigirá investimentos de US$ 810 milhões, segundo a ProInversión, agência peruana de promoção de investimentos. O governo brasileiro se dispôs a financiar a obra com US$ 420 milhões, cerca de 48% do valor total, via Programa de Financiamento às Exportações (Proex). O apoio do Brasil ao projeto está vinculado à exportação de bens e serviços brasileiros, do capacete do peão da obra à retroescavadeira, exemplifica Maria da Glória Rodrigues, assessora especial da Câmara de Comércio Exterior (Camex). Ela explicou que a diferença, para chegar aos US$ 810 milhões, será financiada pela Corporação Andina de Fomento (CAF) e pelo governo peruano, parte que equivale aos gastos locais com mão-de-obra e insumos como areia e cascalho. Maria da Glória avalia que este projeto é importante porque cria a ligação oceânica entre Brasil e Peru, o que facilita o escoamento da produção da Zona Franca de Manaus (ZFM) via Pacífico e, em sentido contrário, é estratégico para a importação de produtos desde o Peru. O projeto irá promover o desenvolvimento sócio-econômico do Sul do Peru, que representa 32% do território e 18% da população peruana, segundo a ProInversión. Para a entidade, o projeto cria um eixo de integração, unindo os oceanos Pacífico e Atlântico via Assis e Rio Branco (AC), e Porto Velho (RO), Cuiabá (MT) e Santos (SP). Maria da Glória, que também representa o Ministério do Desenvolvimento no Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações (Cofig) - órgão que aprova empréstimos para empresas brasileiras em projetos de integração na América do Sul -, entende que, ao entrarem em licitações como esta, as grandes empreiteiras brasileiras permitem que empresas menores, inclusive pequenas e médias, participem da exportação fornecendo materiais e equipamentos. Ela informou que, pela primeira vez em um projeto como este, constituiu-se modelo de risco compartilhado para oferecer garantias contra eventuais não-pagamentos (calotes) do financiamento via Proex. Por este modelo, um terço da garantia é dada por um seguro de crédito formado por recursos do Tesouro Nacional; um terço pela CAF e um terço por banco estrangeiro selecionado pelo governo peruano. "A garantia é hoje a principal barreira para exportar máquinas, equipamentos e serviços", diz a assessora da Camex. Segundo ela, porém, o Brasil não está interessado só em exportar mas em viabilizar a integração física com os países da região. Recursos existem no Proex e no BNDES para financiar projetos de integração na América do Sul, mas muitas vezes o país que escolhe o projeto não consegue estruturar uma garantia que permita a aprovação do empréstimo pelo Brasil. O governo vem buscando diversificar os modelos de garantia e, nesse sentido, busca acordo com a Miga - a agência de crédito do Banco Mundial (Bird). O Cofig já aprovou, entre recursos do BNDES e do Tesouro, US$ 1,6 bilhão para financiar projetos de integração regional na América do Sul entre 2006 e 2008. Além disso, existem outros US$ 370,9 milhões em novos projetos de integração em negociação para serem financiados pelo Brasil envolvendo exportações para Colômbia, Paraguai e República Dominicana. As próprias construtoras brasileiras estão montando sistemas alternativos de garantia que viabilizem projetos de infra-estrutura fora do país. É o caso, por exemplo, da Construtora Norberto Odebrecht (CNO). O projeto do Corredor Viário Inter-Oceânico não é o primeiro projeto no qual a Odebrecht investe no Peru. A empresa tem outras obras no país (nas áreas de fornecimento de água e saneamento) e, no segundo semestre, deve iniciar as obras do projeto Olmos, que consiste na construção de um túnel na Cordilheira dos Andes para fazer a transposição de água e, em um segundo momento, permitir irrigação e geração de energia. "Estamos participando da licitação do Corredor Interoceânico, cuja concessão é por 25 anos", confirma André Amaro, diretor de exportações e financiamentos a projetos da CNO. A Camargo Corrêa também já faz obras de recuperação de uma rodovia no Norte do Peru. Para participar da licitação do Corredor Interoceânico, a Camargo Corrêa associou-se à Andrade Gutierrez e à Queiroz Galvão, além de empresas peruanas, no consórcio Intersur. Já a Odebrecht montou parceria somente com empresas peruanas. Guillermo Rebagliati, do projeto na ProInversión, explicou que o projeto da estrada foi dividido em três trechos que são disputados por cinco consórcios. A obra inclui remodelação e asfaltamento de estradas, num total de 1.009 quilômetros.