Título: Brasil, o exportador que avançará mais
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2005, Agronegócios, p. B13
O Brasil deverá ser o maior ganhador do lado dos exportadores agrícolas nos próximos dez anos, superando os Estados Unidos no comércio global de produtos como oleaginosas e a Austrália no comércio de carne bovina, segundo o estudo da OCDE e da FAO. "Muito depende da própria estabilização econômica do país", disse, com entusiasmo, Merrit Cluff, economista da FAO. O estudo conjunto prevê para a "primeira potência econômica da América Latina" uma taxa de crescimento anual de 4% em média, ante avanço de 2,6% na zona da OCDE . Segundo as duas entidades, nos próximos dez anos o Brasil deixará para trás os EUA no comércio de oleaginosas. A exportação brasileira deve pular de 23,4 milhões de toneladas, em 2004, para 36,1 milhões em 2014 (54,3%). Já os EUA devem crescer de 30,5 milhões para 33,6 milhões (10,2%). Em dez anos, a exportação argentina de oleaginosas poderá ser a metade da brasileira. A China, por sua vez, deverá consolidar sua posição de primeiro importador mundial de oleaginosas, o que significa expansão sensível do mercado global do produto. Os países da OCDE não deverão ganhar terreno como fornecedores, porque a extensão do mercado será ocupada justamente por exportações de Brasil e Argentina. Os dois países do Mercosul vão aumentar suas exportações de oleaginosas, segundo a OCDE, porque suas indústrias esmagadoras - o segmento é dominado por multinacionais - não conseguem acompanhar a expansão da produção doméstica. A superfície destinada à cultura da soja deve crescer 1,2% por ano nos países que não fazem parte da OCDE e seguir relativamente estável no resto. Com relação à carne bovina, o Brasil vai consolidar sua liderança nas exportações. Os embarques do país continuarão no mesmo ritmo e chegarão a 1,6 milhão de toneladas em 2014, enquanto a concorrente Austrália, por exemplo, deverá assistir a um tombo de 1,3 milhão para 1 milhão de toneladas em dez anos. A explicação da FAO é que os australianos estão perdendo competitividade em relação ao Brasil. A União Européia manterá sua condição de importador líquido. EUA e Canadá vão demorar a retomar fatias de mercado perdido com a doença da "vaca louca". Segundo o relatório, os países do Mercosul vão, assim, ocupar um lugar cada vez maior na exportação de carne bovina, impulsionados pelo Brasil. Os volumes suplementares de carne suína para abastecer o mercado mundial também deverão sair do Brasil. Além disso, o país conservará a ponta na exportação de carne de frango. Seus embarques podem passar de 2,5 milhões de toneladas em 2004 para 2,996 milhões em 2014. Já as vendas americanas pulariam de 2,4 milhões para 2,8 milhões. O fluxo de comércio Sul-Sul domina os mercados de açúcar, arroz e óleos vegetais, e o Brasil, mais uma vez, tem destaque. O país deve continuar como o primeiro exportador mundial de açúcar. As vendas do produto não refinado e branco podem crescer perto de 44% nos próximos dez anos. As exportações brasileiras de açúcar bruto passariam de 10,8 milhões de toneladas em 2004 para 15,5 milhões em 2015, enquanto as exportações de açúcar branco dobrariam, para 7,3 milhões de toneladas. Neste caso, a Rússia deve continuar como maior importador. No caso do arroz, os Estados Unidos vão ter exportações em alta principalmente para a UE. As projeções para óleos vegetais indicam que Brasil e Argentina, embora aumentando as exportações, continuarão tendo fatia relativamente modesta em relação às exportações de produtores de óleo de palma como Indonésia e Malásia. As perspectivas agrícolas da OCDE e da FAO para entre 2005 e 2014 se apóiam na hipótese de que as taxas de câmbio das principais moedas em relação ao dólar se manterão no nível de 2004 durante o período analisado. E reafirma o que os exportadores brasileiros não cessam de dizer: o ajuste cambial influencia a competitividade. As duas entidades consideram, finalmente, que um certo numero de exportadores, como Brasil e Argentina, verão suas moedas se desvalorizarem em relação ao dólar até 2014. Já o yuan chinês terá ligeira apreciação - o que não será sem conseqüências para as trocas do gigante, já que deverão frear as importações e tornar as exportações mais competitivas. (AM)