Título: Real valorizado reduz superávit
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2005, Agronegócios, p. C1

Contas Externas Saldo positivo do balanço de pagamentos fica abaixo do esperado em maio

O dólar mais fraco elevou o déficit no balanço de serviços e rendas, fazendo com que o superávit em conta corrente de maio ficasse abaixo do esperado por analistas econômicos. O que mais pesou foram as remessas de lucros e dividendos, mas há pressões importantes também em itens como turismo, aluguel de equipamentos, computação e royalties. O superávit em conta corrente somou US$ 615 milhões em maio, ou menos da metade do US$ 1,472 bilhão observado no mesmo mês de 2004. O BC já esperava um resultado dessa ordem - US$ 700 milhões -, mas analistas do mercado financeiro projetavam números entre US$ 1 bilhão e US$ 1,2 bilhão. Os dados preliminares indicam que se avizinha um período de superávits menos portentosos em conta corrente: para junho, o BC estima um resultado de US$ 1 bilhão, novamente abaixo do ocorrido no mesmo mês de 2004, quando somou US$ 2,010 bilhões. Com a balança comercial ainda apresentando razoável dinamismo, o que deprime o resultado em conta corrente é o balanço de serviços e rendas. As remessas líquidas de lucros e dividendos, por exemplo, chegaram a US$ 1,405 bilhão, quase o dobro dos US$ 798 milhões observados no mesmo mês de 2004. A avaliação do Departamento Econômico do BC é que o dólar mais barato está impulsionando as remessas ao exterior; há também um efeito, ainda que menos importante, do patamar mais elevado no nível de atividade em 2005, na comparação com 2004. O movimento tem sido tão significativo que o BC elevou sua estimativa para as remessas de lucros e dividendos nas projeções oficiais para o balanço de pagamento de 2005 - subiu de US$ 7,8 bilhões para US$ 9 bilhões. A valorização do câmbio também está por trás da alta de 265% no déficit em serviços, que passou de US$ 227 milhões para US$ 829 milhões, entre maio do ano passado e deste ano. O turismo internacional, que registrara superávit de US$ 75 milhões, exibiu um déficit de US$ 133 milhões. "É o efeito do câmbio e do aumento da renda", disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes. Houve crescimento ainda no déficit em serviços como aluguel de equipamento (alta de 214%, para US$ 367 milhões), computação e informações (mais 110%, para US$ 133 milhões) e de royalties e licenças (102%, para US$ 150 milhões). A expansão das remessas de lucros e dividendos não é um evento novo - vem sendo observada desde março -, mas só agora o BC concluiu um diagnóstico mais preciso sobre o fenômeno. Em meses anteriores, a autoridade monetária chegou a atribui-la à antecipação de remessas de lucros e dividendos e à maior lucratividade das empresas. Esses fatores podem até ter algum peso, mas o BC agora está certo de que o dólar mais fraco é a principal variável por trás dos números. A valorização da moeda nacional, explica Lopes, faz com que os lucros auferidos nos balanços em reais fiquem mais gordos quando as empresas fecham o câmbio para fazer suas remessas. Uma forma alternativa de ver a questão é sob o prisma do valor de mercado das empresas em dólares. A apreciação do real faz com que o investimento estrangeiro direto, quando medido em dólares, torne-se mais elevado. Os números: o estoque de investimentos estrangeiros diretos saltou de US$ 132,799 bilhões para US$ 161,238 bilhões entre dezembro de 2003 e de 2004. A contrapartida do maior volume de investimentos é o aumento das remessas de lucros e dividendos. A lucratividade das empresas neste ano, segundo o BC, não foge muito da observada em anos anteriores. As remessas de lucros e dividendos registradas até agora equivalem, em números anualizados, a 4,8% do estoque de investimentos diretos observado no fim de 2004. Pelo mesmo critério, as remessas de 2004 equivaleram a 5,2% dos investimentos; um ano antes, a 5,8%. As remessas de lucros seguem bastante pulverizadas. O setor mais importante foi o de veículos (US$ 296 milhões), seguido do de produtos alimentícios e bebidas (US$ 223 milhões), eletricidade e gás (US$ 53 milhões) e comércio atacadista (US$ 45 milhões).