Título: Sobre índices e rankings
Autor: Guilherme Augusto Cirne
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2004, Opinião, p. A-8

Cansado de ver o país parar toda vez que é publicado um índice ou um ranking qualquer dentro de uma verdadeira enxurrada de índices e rankings duvidosos, decidi, finalmente, expressar minha opinião sobre tão apaixonante tema. Como o último foi um tal Índice de Competitividade, vamos nos concentrar nele. É preciso entender que todos esses índices/rankings foram conceituados e desenvolvidos no Hemisfério Norte, quase sempre em países anglo-saxões, do chamado Primeiro Mundo. Ora, imaginem vocês se esses pesquisadores decidissem criar um ranking para classificar as populações dos mais diferentes países do mundo. Não haveria qualquer dúvida que o padrão seria o seguinte: "indivíduo louro, alto, bonito, com todos os dentes, saúde perfeita e, de preferência, protestante". Não preciso dizer que o Brasil ficaria de fora. É exatamente isso que acontece com todos esses famigerados índices/rankings que se propõem a classificar países com base em indicadores socioeconômicos e políticos. No caso do Índice de Competitividade, do World Economic Forum, os parâmetros utilizados foram nível de uso de tecnologia, qualidade de instituições públicas, acesso a financiamento e ambiente macroeconômico. Um breve sobrevôo sobre o excitante índice permite identificar brilhantes pérolas: 1) O Chile, que tem um Produto Interno Bruto (PIB) do tamanho da região de Campinas, exporta basicamente commodities e tem um mercado interno do tamanho de Guarulhos, está à frente da Espanha e França;. 2) O Japão, que acreditávamos ser um exemplo de investimento em educação e pesquisa, além de ser a segunda economia do mundo, está em 21º lugar, logo à frente do Chile (olha ele de novo); 3) A Itália está atrás da Botswana e da África do Sul; 4) A China (país que cresce há mais de 20 anos a taxas superiores a 8% ao ano, é o terceiro maior exportador mundial, domina a tecnologia nuclear, produz satélites, quer enviar astronautas ao espaço e tem um saldo comercial com os Estados Unidos de cerca de US$ 50 bilhões/ano), acreditem se quiserem, está atrás de Botswana, África do Sul e ganha, raspando, da Namíbia;

A China, que cresce a mais de 8% ao ano, está atrás de Botswana, África do Sul e ganha, raspando, da Namíbia

5) A Coréia do Sul, país que investe maciçamente em educação e pesquisa e é grande exportador de chips, passou, no período de um ano, da 18ª colocação para a 29ª. Com isso, o país, que estava à frente do Chile, agora está sete posições atrás. Só me resta acreditar que Bin Laden passou pela Coréia do Sul e não deixou pedra sobre pedra; 6) A Índia (país apontado como um dos destinos ideais para investimentos diretos nos próximos anos, grande exportador de software, maior fornecedor de medicamentos genéricos para o mercado americano) ficou atrás de Botswana, África do Sul, Namíbia, México, Costa Rica, Trinidad e Tobago, El Salvador e Uruguai; 7) A única unanimidade são os últimos colocados, Chade e Haiti. Como pode um "iluminado" fazer um ranking desses e não se questionar como a França (terceira economia da União Européia, fabricante de bombas atômicas, com tradição de instituições públicas, fabricante de aviões de combate de última geração, sede da Sorbonne e do Louvre) pode ficar atrás do Chile. Ou ainda, a Índia, que tem um número de doutores formados nas melhores escolas do mundo cem vezes superior ao número de doutores de toda a África, ficar atrás da Namíbia. E para que serve o mágico índice? Fico imaginando se os investidores que descarregam, anualmente, US$ 50 bilhões de investimento externo na China, se deram ao trabalho de ler o brilhante trabalho. O presidente mundial do segundo maior grupo financeiro em valor de capitalização, o HSBC, declarou, recentemente, que a prioridade estratégica para o banco são os mercados da China e da Índia. Imaginem uma cena, em que o presidente da maior corporação americana, depois de uma semana de intensos trabalhos, declara, solenemente, aos demais diretores: "Então, está decidido, vamos para o Chile e podemos esquecer a Espanha". Por fim, imaginem também o presidente de um grande grupo europeu interromper a reunião anual do "board "para declarar: "Não adianta, ninguém me convence a colocar um tostão na Itália enquanto existir Botswana". Posso garantir a vocês que leitura de tão agradável trabalho não vai fazer nenhum espanhol perder um minuto de "siesta"; os franceses, com seu raciocínio cartesiano, vão dizer que isto é coisa dos ingleses; os coreanos, com sua introspecção oriental, vão jurar que é coisa de japonês; os chineses, com sua sabedoria milenar, vão ignorar o assunto; os indianos vão achar que Gandhi tinha razão quando dizia que cada um deveria produzir seu sal e seu tecido. Quanto a nós, pobres brasileiros, causa espanto ver analistas, políticos, empresários e membros da alta administração federal se quedarem embasbacados diante de tão terrível sentença, e depois se entregarem a um processo intenso de catarse, incapazes de responder à hamletiana dúvida: "Onde foi que erramos?"