Título: Alta do juro pode afetar decisões de investimento
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2004, Especial, p. A-10
A decisão do Banco Central (BC) de promover um aperto monetário mais forte do que se esperava pode causar efeitos indesejáveis sobre os investimentos, advertem alguns analistas. O medo é de que medidas como a alta da taxa Selic de 16,25% para 16,75% ao ano, promovida na quarta-feira, levem os empresários a adiar novos projetos. Com isso, em vez de apenas afetar o ritmo de expansão da demanda, o conservadorismo do Comitê de Política Monetária (Copom) pode prejudicar a ampliação da capacidade de oferta. O economista-chefe da LCA Consultores, Luís Suzigan, é um dos que temem esse risco. Para ele, o BC não deveria nem mesmo ter subido os juros, já que as pressões inflacionárias derivam principalmente de choques de custos - decorrentes da alta do petróleo e de outras commodities -, e não do excesso de demanda. Além disso, a economia já dá sinais de desaceleração, afirma ele. Suzigan entende que uma elevação de 0,25 ponto não teria efeitos mais sérios sobre as decisões de consumo e investimento, mas acredita que o rigor do BC pode ter impacto negativo sobre o ânimo dos empresários. Para ele, um fator a ser monitorado é o comportamento das taxas de juros de longo prazo da economia, que determinam o custo de empréstimos e financiamentos. Se essas taxas subirem muito, encarecendo o investimento, o ritmo de crescimento pode ser abalado. O economista Caio Prates, do Grupo de Conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também aponta os juros mais longos como crucial para definir o que vai ocorrer com a economia daqui para a frente. Segundo ele, no Brasil, quando o juro prefixado de um ano fica 3 pontos percentuais acima da Selic, surge um sinal poderoso de reversão do crescimento. Ontem, em reação à decisão do Copom, a taxa de um ano subiu de 17,5% para 17,7% ao ano - ou seja, menos de um ponto acima da Selic. Para Prates, isso é positivo, por indicar que o mercado acredita que a alta dos juros básicos é transitória, e que, no médio prazo, a tendência é de queda. A questão é que o aperto monetário ainda não parece ter chegado ao fim, pelo que sugerem as recentes atas das reuniões do Copom. O economista Julio Callegari, da Tendências Consultoria Integrada, lembra que "quanto maior o aperto monetário, maior a perspectiva de desaceleração A preocupação é se os investimentos não serão demasiadamente afetados, eventualmente mais que a demanda, pelas expectativas negativas", ponderou. Mas há quem considere esse risco pequeno. O economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero, lembra que, mesmo depois da primeira alta dos juros promovida pelo Copom em setembro, o índice de confiança empresarial medido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) cresceu em outubro, se aproximando do pico atingido em janeiro de 2001. "O empresariado espera elevação no ritmo de crescimento e declara mais intenções de investimento", avalia. Para Montero, a alta de 0,5 ponto da Selic não deve ser suficiente para reverter decisões de investimento, "a não ser que se faça muita marola sobre o assunto". Montero está otimista quanto ao desempenho da economia nos próximos meses. Para ele, o emprego deve continuar a crescer, aumentando a massa salarial, e a política fiscal vai ser expansionista nos próximos meses, fatores que devem impulsionar o crescimento, num ambiente de confiança dos consumidores e empresários. (SL)