Título: Suzano, IP e Stora Enso cobiçam a Ripasa
Autor: Vanessa Adachi e André Vieira
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2004, Empresas, p. B-1
A Ripasa, fabricante nacional de papel e celulose, está em conversas com pelo menos três grandes grupos que podem reconduzi-la ao primeiro time das empresas do setor. As negociações podem evoluir para a venda do controle, uma fusão ou algo menos ambicioso como um acordo estratégico, segundo fontes familiarizadas com as conversas. Estão no páreo a brasileira Suzano Bahia Sul, a sueco-finlandesa Stora Enso e a americana International Paper (IP). As conversas ainda estão em fase preliminar e, numa avaliação otimista, poderia se esperar um desfecho dentro de três semanas. Não é a primeira vez que as famílias Zogbi, Derani e Zarzur, controladoras da Ripasa, decidem encontrar um outro destino para a companhia. No fim dos anos 90, a empresa foi colocada à venda por conta de dificuldades financeiras, mas as três famílias optaram por manter o controle. Por essa razão, há quem duvide que alguma negociação possa prosperar agora. O presidente da Stora Enso na América do Sul, Nils Grafström, disse ontem que o objetivo da empresa é finalizar o projeto da Veracel na Bahia (joint-venture entre o grupo e a Aracruz Celulose). O empreendimento de US$ 1 bilhão deve ficar pronto em 2005 e produzirá apenas celulose ao mercado. "Após a Veracel, vamos trabalhar para aumentar nossa presença em papel", afirmou. Especificamente sobre a Ripasa, Grafström disse: "Nossa política é não comentar rumores." A IP, por meio de sua assessoria, disse que não se manifestaria sobre o assunto, mesma resposta dada pelo diretor financeiro e de relações com investidores da Suzano Bahia Sul, Bernardo Szpigel. A Ripasa, por intermédio de sua assessoria de relações públicas, disse que não há fundamento no que classificou de "rumores". Pelo porte da companhia, a Ripasa é vista como uma boa oportunidade de crescimento para quem já tem presença forte no mercado brasileiro, como a Suzano, ou como uma porta de entrada para quem deseja ampliar sua participação, como já demonstraram a Stora Enso e a IP. Por conta da diferença de posicionamento no mercado brasileiro, cada um dos interessados no negócio vem discutindo um formato diferente. Segundo uma fonte, no caso da Suzano, as conversas giram em torno de uma fusão, que criaria uma das maiores empresas integradas de papel e celulose do país. A Ripasa estaria avaliada em mais de US$ 300 milhões. Nos últimos dias, as especulações em torno de uma possível venda da Ripasa ganharam força na Bolsa de Valores de São Paulo. As ações preferenciais subiram ontem 4% - o sexto pregão consecutivo de alta, acumulando uma disparada de 15,8% nas cotações no período. Desde o início do ano, as ações já se valorizaram 30,5% enquanto o Ibovespa evoluiu apenas 3,7%. Aparentemente, muitos investidores compraram o papel apostando em um posterior fechamento de capital da Ripasa. Mas não é certo que o fechamento de capital vá ocorrer. As três famílias controlam a Ripasa por meio da holding ZDZ Participações, que tem 97,7% do capital votante da empresa. As ações pertencentes à família Zarzur estão bloqueadas. Os Zarzur controlavam, juntamente com a família Fakhoury, o Banco Mercantil de Descontos (BMD), liquidado em 1998, e ficaram com seus bens indisponíveis. Mas, segundo fontes relacionadas ao assunto, isso não impediria a transação. Há um ano, a família Zogbi vendeu sua financeira ao Bradesco por R$ 650 milhões. Criada em 1959, a Ripasa tornou-se uma das grandes empresas do setor nos anos 70. Mas, nos últimos cinco anos, perdeu o passo. O setor de papel e celulose entrou em um processo de consolidação. Em 2001, a Suzano comprou da Vale do Rio Doce a metade que faltava para controlar integralmente a Bahia Sul. No mesmo ano, a Votorantim Celulose e Papel (VCP) comprou 28% da Aracruz. A Riocell, que era da Klabin, foi vendida no ano passado para a Aracruz. A Cenibra, controlada pelos japoneses da JBP, está em fase de consolidação de um investimento de US$ 1 bilhão em sua fábrica em Minas Gerais. A Klabin, que enfrentou dificuldades financeiras depois da desvalorização do real, concluiu seu processo de reestruturação, desfazendo-se de ativos e se reposicionando no mercado. A reorganização fez surgir grupos que se preparam para produzir de 2 milhões a 3 milhões de toneladas de papel e celulose por ano. A Ripasa, que produz cerca de 700 mil, ficou para trás.