Título: A força do dragão chinês
Autor: Felipe Frisch
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2005, EU &, p. D1
Ações de mineração, aviação, alimentos e celulose podem levar vantagem frente a têxteis e mesmo siderúrgicas no longo prazo
Os efeitos do crescimento chinês nas ações brasileiras já se fazem presentes, positiva ou negativamente, dependendo do setor. Podem levar vantagem nessa relação comercial as ações dos setores de mineração, alimentos, papel e celulose e Embraer. Já as têxteis, petroquímicas e mesmo as siderúrgicas, no longo prazo, podem enfrentar problemas. Para as ações das mineradoras Vale do Rio Doce e Caemi, por exemplo, a demanda chinesa pelo minério de ferro tem sido a locomotiva dos resultados e dividendos. Com relação às siderúrgicas, que usam a matéria-prima, há divergências. Por enquanto, o crescimento da China é considerado positivo, mas pode virar uma ameaça no futuro, caso o país se transforme em um grande exportador. Hoje, mesmo que o gigante do Oriente não seja um grande importador do aço brasileiro - devido à distância -, o fato de estar comprando o produto de outros países aquece o interesse pelo aço brasileiro quando o custo compensa, explica Catarina Pedrosa, analista do Banif Investment Banking. Com a demanda internacional aquecida, segundo ela, os destaques são as ações da CST e da Cosipa, que produzem placas de aço e, portanto, são mais focadas na exportação. As demais empresas exportam apenas 20% da produção. Rudolf Bühler, diretor do Instituto Brasileiro de Siderurgia, acredita mesmo que a China deve se tornar exportadora. Mas é otimista, "pois a China sempre foi inconstante na compra e venda de aço", diz. Outra que pode se beneficiar da venda de aços planos é a Vale, com as esperadas parcerias com a chinesa Baosteel e a européia Arcelor, diz Catarina. A parceria direta com empresas na China é a melhor forma de aproveitar o crescimento chinês, avalia Renato Amorim, secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil China. Segundo ele, dois terços das exportações chinesas partem de multinacionais com origem em outros países. Essa parceria vem sendo usada há anos por fabricantes americanas de brinquedos e aí estaria um problema para o setor aqui, que tem na bolsa as ações da Estrela. Da mesma forma, o setor petroquímico sofre ameaças indiretas com as importações de sacolas e brinquedos chineses, avalia Pedro Galdi da corretora do Banco Real. Um setor onde o prejuízo da voracidade chinesa é dado como certo é o têxtil. Para Amorim, a China tende a se tornar exportadora de 50% dos produtos têxteis mundiais. Segundo Alfried Plöger, da Abrasca, 80% das máquinas têxteis do mundo estão sendo compradas pela China. Já para o setor de alimentos, a expectativa é pela abertura do mercado chinês em breve, avalia Galdi. Apesar de ser o maior produtor de aves do mundo, a China ainda precisa importar muito - "não dá para virar exportador de alimento com aquele povo todo", diz - para dar conta da população de mais de 1,2 bilhão. É esperada para o fim desse mês uma missão veterinária chinesa para aprovar a importação do Brasil de pé, asa e miúdos de galinha. Em troca, o Brasil poderá passar a importar tripa de porco e alho. Com a persistência da gripe aviária na Tailândia, grande fornecedor da China, o Brasil - com destaque para as abertas Sadia e Perdigão - tem um grande mercado à frente. Outro setor que pode ganhar com as relações comerciais com a China é o de papel e celulose. O país asiático está substituindo as atuais instalações por outras de melhor qualidade e tende a comprar celulose nos próximos anos, diz Catarina. Os destaques são as ações da Aracruz, do setor a brasileira que mais exporta para a China, 23% do que vende ao exterior. Também de olho nesse mercado, a Klabin está se especializando em produtos com valor agregado. Os acionistas da Embraer também levam vantagem. Na avaliação do estrategista da Ágora Senior, Marco Melo, é um mercado ainda com muito para crescer. A companhia tem instalações na China para atender ao mercado, lembra Galdi, do Real.