Título: Pulverização do setor de fundos ainda é o grande desafio no país
Autor: Luciana Monteiro
Fonte: Valor Econômico, 22/06/2005, EU &, p. D2

Administração de Recursos Apesar da concentração, assets especializadas têm crescimento maior que bancos

Apesar do forte crescimento dos gestores independentes, o setor de fundos continua concentrado em alguns grandes bancos. Essa é a conclusão de estudo feito por Paul Gruppo, diretor geral no Brasil da Roland Berger Strategy Consultants, consultoria especializada em mercado financeiro. Segundo o estudo, com base nos números da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), em 2000, 77% do patrimônio de R$ 289 bilhões do setor estava nas mãos dos oito maiores bancos e 23% com as demais assets. Hoje, os oito maiores detêm 73% dos R$ 665 bilhões do setor. Ou seja, uma queda de quatro pontos percentuais na concentração para um crescimento dos recursos da ordem de 130%. Apesar da forte concentração apresentada entre as assets de bancos no Brasil, as administradoras com foco em determinados nichos de mercado têm apresentado alto crescimento, na faixa de 50% num período de cinco anos ou desde a fundação da instituição. Já no caso dos maiores bancos de varejo, o crescimento fica na casa dos 20%, estima o executivo. Vale ressaltar, no entanto, que crescer sobre uma base menor de clientes e de volume é mais fácil que diante de um patrimônio maior, lembra Gruppo. No mundo todo, o setor fechou 2004 com total de US$ 16,1 trilhões, segundo dados da Worldwide Mutual Funds Asset and flows. "Em relação ao PIB, o Brasil está em níveis próximos ao de países ricos", afirma Gruppo. No Brasil, os fundos de investimento representam 33% Produto Interno Bruto (PIB). Na Grã-Bretanha, a relação é de 22%, o mesmo valor apresentado na Espanha. Na Itália, o setor representa 30% do PIB e, no Japão, 8% Enquanto no mercado brasileiro a maior parte dos recursos está em carteiras de renda fixa, os fundos de ações predominam nos países anglo-saxões. Na Europa, como um todo, o percentual é de 33%, mas a Inglaterra, por exemplo, tem 74% dos recursos em fundos de ações. Uma das mudanças que o executivo acredita ser pertinente está no chamado perfil do investidor. A maior parte das instituições trabalha com três tipos: conservador, moderado e agressivo. "Isso precisa mudar, é preciso abrir mais a gama de perfis", diz. "Um homem de 50 anos, por exemplo, com filhos formados e com um certo fluxo de caixa tem uma certa estabilidade e pode aplicar em produtos um pouco mais arriscados." Com a forte concentração de recursos aplicados em títulos públicos - o maior patrimônio do setor está nas categorias DIs e renda fixa-, obter rentabilidades diferenciadas é uma tarefa mais do que árdua para o gestor brasileiro. Para que uma asset consiga crescer, portanto, será preciso investir no tratamento financeiro diferenciado para os clientes que não são donos de milhões, mas contam com alguns milhares para aplicar e podem trazer boas receitas para os bancos. Segundo dados da Anbid, em 2000, 76% dos R$ 289 bilhões estavam aplicados em títulos públicos. O percentual mudou pouco de lá para cá. Hoje, 74% dos R$ 665 bilhões estão em papéis do governo. "A falta de um mercado de capitais mais desenvolvido restringe a capacidade dos gestores de se diferenciar em relação à performance", diz o executivo. "Os gestores têm poucas opções de investimento, como juros, bolsa e câmbio, e acabam operando nos mesmos mercados, adotando estratégias similares." Os dados mostram que o percentual investido em ações permaneceu em 11% nesse período e o de CDBs cresceu de 7% para 12%. Diante da dificuldade de atingir rentabilidades diferenciadas para atrair os investidores, a estratégia do mercado, sobretudo dos grandes bancos, tem sido mirar os investidores de varejo, que pagam maiores taxas de administração nos fundos. "No mercado brasileiro de fundos de investimento, a briga tem sido na base da pirâmide", avalia Gruppo. "Os clientes institucionais têm maiores volumes para aplicar, mas a guerra de taxas que houve entre as gestoras para atrair esses investidores baixou demais as receitas das instituições." Outra saída tem sido tentar atrair os clientes private (pessoa física de alta renda). E é justamente nos gerentes das agências bancárias que a maior parte dos clientes de fundos buscam informações para realizar suas aplicações. Pesquisa do Ibope a pedido da Anbid revela que 89% dos clientes pessoa física que investem em fundos aplicam em produtos de bancos de varejo. Os gerentes são apontados como o principal meio de informação, com 54% dos investidores. A transparência do setor no Brasil é um dos pontos positivos apontados pelo executivo. Ele lembra que nos Estados Unidos, por exemplo, o investidor de fundos paga uma taxa fixa, além de outros custos (como corretagem), que são deduzidas do fundo pelo gestor. Por aqui, o cliente paga apenas um valor fixo, que tem de cobrir todas as despesas. Paul Gruppo chegou à Roland Berger este ano, após passagem pela consultoria Europraxis, onde permaneceu por dois anos. Com atuação no Banco Chase na área de atacado nos Estados Unidos em vários países da América Latina, o executivo foi para a área de consultoria em 1989. Sempre atuando na área financeira, com análises para bancos e seguradoras, assets, private banks, bancos de varejo e de atacado, Gruppo passou pela Booz Allen e pela Accenture.