Título: Recursos de gás natural estão subutilizados no Cone Sul, dizem produtores
Autor: Daniel Rittner
Fonte: Valor Econômico, 24/06/2005, Brasil, p. A4
Reservas de gás natural distantes dos principais mercados, onda nacionalista que ameaça a retomada de ativos privatizados e instabilidade regulatória, tudo isso somado a preços baixos do gás que não incentivam investimentos. Esse foi o panorama geral da atual situação do Cone Sul apresentado ontem pelos principais produtores de gás onde o consumo está crescendo numa média de 5% ao ano. "Hoje os recursos de gás natural da região estão de certa forma subutilizados ou subdesenvolvidos, com exceção da Argentina, os fluxos de integração são limitados e não há real incentivo para a exploração de reservas longe dos centros de consumo", resumiu Cynthia Silveira, a diretora de Gás e Eletricidade da Total. O diretor de comercialização de gás natural da Repsol YPF, Ernesto López Anadón, calcula em US$ 10 bilhões os investimentos necessários para atender à demanda por infra-estrutura de interconexão nos próximos dez anos, entre os quais está incluído um gasoduto levando gás da Bolívia para o sul do Brasil passando pela Argentina. Anadón ressaltou ainda que outros US$ 3 bilhões serão necessários para a exploração e produção do gás, frisando que nesses valores não estão incluídos os US$ 2 bilhões investidos anualmente na Argentina e no Brasil. "A integração gasífera está numa encruzilhada por causa de mudanças de regras que podem tornar inviável os investimentos", avalia Anadón. Segundo o executivo da Repsol, as barreiras ideológicas que surgiram nos países da região - e o exemplo mais próximo é a Bolívia - estão impedindo que a integração energética seja uma realidade. Entre as razões enumeradas por ele estão os preços baixos e a falta de uma sinalização de preço adequada. "Cada país tem um preço diferente, fixado a seu bel-prazer", critica Anadón, ressaltando especificamente o caso da Argentina, que tem 50% de sua matriz energética baseada no gás, mas onde os preços são os mais baixos da região. "Isso está criando uma pressão sobre essa matriz e estendê-la artificialmente é muito perigoso", alertou. Para melhorar esse cenário, as principais empresas detentoras de reservas de gás na região - Repsol, Petrobras, Total e BG - cobram uma integração não apenas física, como da regulamentação. Para reverter o cenário de indefinição, Ernesto Anadón propôs a assinatura de um acordo supranacional que traga regras claras, com regulamentação similar em todos os países e que proteja os investimentos. "Só assim se poderá evitar que barreiras ideológicas destruam o projeto de integração do Cone Sul." No geral, os pontos enfatizados no painel sobre integração da indústria de gás na região, realizado ontem na IX Conferência de Engenheiros de Petróleo da América Latina e Caribe (Lacpec) eram os mesmos. O gerente-executivo da área internacional da Petrobras, Décio Oddone, ex-presidente da Petrobras Bolívia, ressaltou que a situação no país vizinho "se acalmou" nas últimas semanas, e agora as empresas aguardam a manifestação das autoridades bolivianas. Sobre a Bolívia, Cynthia Silveira, da Total, disse que o problema "extrapolou a esfera das empresas" e que é preciso aguardar para ver o que a sociedade boliviana vai resolver. "A crise se acalmou mas parece latente no ar", resumiu. Já o presidente da BG Brasil, Luís Carlos Costamilan, se disse impressionado com a afinidade dos discursos.