Título: Lula decide manter Coordenação Política e Aldo fica até reforma
Autor: Cristiano Romero
Fonte: Valor Econômico, 24/06/2005, Política, p. A6
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai mais extinguir o Ministério da Coordenação Política, como vinha planejando. Lula decidiu também manter no posto o ministro da Coordenação, Aldo Rebelo, até que seja anunciada a reforma ministerial. Aldo poderá permanecer em definitivo no cargo, mas a tendência mais forte é que assuma uma outra Pasta. Até o início da noite de ontem, o mais cotado para comandar a Coordenação Política era o ministro Jaques Wagner (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social). Numa audiência com Lula para sacramentar a escolha, Wagner disse ao presidente, no entanto, que não abre mão da candidatura ao governo da Bahia em 2006. Lula, segundo relato de assessores, ficou irritado com as exigências de Wagner. Apesar disso, informou uma fonte do governo, ainda poderá nomeá-lo para a Coordenação Política. O plano do presidente era exigir dos ministros candidatos que deixem o governo agora. O objetivo é evitar uma nova reforma ministerial em abril do próximo ano, prazo-limite para que os candidatos se desincompatibilizem de seus cargos. Provavelmente, haverá exceções à regra. Uma delas é o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, que pode sair candidato ao governo de Pernambuco pelo PSB. O presidente planejava extinguir a Coordenação Política e transferir suas funções para o CDES, órgão comandado por Wagner. A idéia era que os líderes do governo na Câmara e no Senado, além do deputado José Dirceu (PT-SP), cuidassem da articulação política no Congresso. O objetivo era isolar o Palácio do Planalto das CPIs que investigam denúncias de corrupção contra quatro partidos da base congressual do governo. Aldo e a cúpula do PT consideram um equívoco extinguir a Coordenação Política. Ontem, Lula foi convencido a mudar de idéia. "A gravidade da situação não nos permite ficar sem articulação política no Planalto", comentou um assessor do presidente. O presidente conversou ontem tanto com Wagner quanto com Aldo. A expectativa era que, depois da audiência com Lula, Aldo anunciasse sua demissão. Numa reviravolta surpreendente, o ministro informou que Lula pediu para que ele permaneça no cargo, exercendo "as tarefas da articulação política". O propósito do ministro era pedir demissão, uma vez que vive situação insólita há 15 meses: o PT, o partido do presidente, não o quer na função. "O presidente me mandou continuar trabalhando", contou Aldo. O último lance dramático da fritura sofrida por Aldo ocorreu na noite de quarta-feira. Convidado para participar da tradicional festa junina promovida pelo senador José Jorge (PFL-PE) em Brasília, Jaques Wagner falou abertamente, em pleno reduto da oposição, sobre sua indicação para a Coordenação Política. "O presidente já me fez a sondagem. Está tudo certo", disse Wagner, acrescentando que o anúncio seria feito hoje ou amanhã. "Provavelmente, na sexta-feira." Aldo soube do fato e levou a Lula uma coleção de matérias jornalísticas, dando conta de sua demissão. A tendência do presidente ainda é entregar a Coordenação Política ao PT - Aldo é do PC do B. Com isso, deverá deslocar o atual articulador político para outro ministério. Nas mexidas que fez antes, Lula cogitou nomear Aldo para a Pasta do Trabalho ou a da Defesa. Se Lula decidir mesmo pela entrega do cargo ao PT, em lugar de ceder espaço aos aliados, o partido ganhará mais força no governo. A escolha de um petista não fará as sinalizações que a reforma ministerial poderia sugerir: nem de que o presidente vai governar com alianças, nem de que vai melhorar as relações com o Congresso. Ela significa que o tamanho do PT, dentro do núcleo decisório do governo, aumentará. Na avaliação de um importante aliado do governo, com a ida de José Dirceu para a Câmara, a substituição de Aldo tornou-se desnecessária. Dada a sua liderança natural no PT, Dirceu é hoje o responsável por comandar o partido e fazer a sua interlocução junto ao governo, tarefa que Aldo não conseguia desempenhar por causa do boicote petista. Aldo, por sua vez, é o interlocutor dos partidos da base aliada e também da oposição. Ontem mesmo, o dia de sua demissão anunciada, mas frustrada, ele foi surpreendido por um telefonema do líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP). Na conversa, o deputado pediu a Aldo que entrasse em cena para acalmar os líderes do PP e do PL, que ficaram indignados com os rumores de que o senador Aloizio Mercadante (PT-SP) teria elaborado lista dos deputados dos dois partidos que serão cassados pela CPI - mais tarde, o próprio Mercadante desmentiu com veemência a existência da lista. Coube ao atual ministro da Coordenação Política, no entanto, fazer o seu trabalho: dialogar com os aliados e apagar mais um incêndio.