Título: Hospitais brasileiros elevam endividamento e o lucro encolhe
Autor: Roberta Campassi e Carolina Mandl
Fonte: Valor Econômico, 24/06/2005, Empresas &, p. B1

Saúde Estudo feito com 27 empresas da Associação Nacional de Hospitais Privados mostra a crise

O quadro de saúde dos hospitais privados brasileiros está se deteriorando. Segundo pesquisa elaborada pelo Centro Paulista de Economia da Saúde (Cpes), da Universidade Federal de São Paulo, em 2004, a margem líquida dos centros médicos caiu de 4,7% em 2003 para 1,8% em 2003. O levantamento, feito com 27 dos 34 hospitais da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), aponta que a redução da lucratividade das entidades se deve a uma piora no nível de endividamento das entidades. "Os hospitais tiveram de se endividar mais em 2004, principalmente para conseguir investir. Como conseqüência, pagaram mais juros", afirma Jorge Padovan, economista do Cpes. Apesar de a queda de resultados ter marcado a maioria dos hospitais, diz Padovan, alguns conseguiram driblar o problema. Balanços analisados pelo Valor mostram que entidades como Albert Einstein, São Luiz, Sírio-Libanês e Nove de Julho apresentaram lucros maiores em 2004. O Einstein, por exemplo, está vendendo saúde. O superávit da sociedade beneficente cresceu 35,8% no ano passado, para R$ 103,8 milhões. E sua margem líquida passou de 16,1% para 18,3%, muito acima da média do setor. Segundo Francisco Balestrin, vice-presidente da Anahp, os hospitais precisaram se endividar mais em 2004 porque eles vêm há vários anos com dificuldade de repassar preços para seus serviços e medicamentos vendidos. "Com isso, os hospitais ficaram com menos dinheiro para investir em tecnologia e tiveram de se endividar mais", afirma ele. Também com balanços mais frágeis, as operadoras de saúde vêm freando o repasse de preço a seus prestadores de serviços, como hospitais e centros de diagnósticos. "Por anos, medicamentos e materiais foram a válvula de escape dos hospitais. Já que não podiam cobrar mais pelo serviço, vendiam remédios mais caros. Mas no ano passado nem isso foi possível", explica o diretor financeiro do hospital São Luiz, André Staffa Filho. Cerca de 47% das receitas dos hospitais hoje vêm de medicamentos e materiais, como gaze e seringa. Os serviços correspondem a apenas 30% da receita deles. Apesar de a última linha do balanço mostrar resultados mais fracos, do lado operacional, os centros médicos apresentaram resultados melhores. A margem operacional das empresas subiu de 8,7% para 9,7%, o melhor índice desde 2002. "Buscou-se compensar as despesas financeiras maiores com o atendimento a mais pessoas e com a prestação de serviços de maior rentabilidade", afirma Balestrin, da Anahp. A pesquisa mostra que o número de internações subiu 23% em 2004. Esse foi o caso, por exemplo, do Sírio-Libanês. Segundo o diretor de serviços médicos do hospital, André Osmo, o faturamento do hospital criou novas unidades de serviço e leitos especialmente para tratamento intensivo - mais especializado e complexo, que proporcionam melhores margens. O tempo de internação dos pacientes aumentou em 0,5% - o que comprova o aumento no atendimento dos casos de maior complexidade, que requerem maior período de recuperação. O superávit do hospital foi de R$ 41,07 milhões, valor 11,16% maior em relação a 2003. O Nove de Julho também ampliou sua capacidade de atendimento em cerca de 10%, e, segundo Neil Mascarenhas, diretor financeiro do hospital, permanece investindo nos serviços de alta complexidade. Seu faturamento cresceu 18% devido ao aumento no número de pacientes atendidos. O hospital São Luiz decidiu investir R$ 20 milhões para a construção de um novo prédio para ampliar sua capacidade do centro obstétrico e de cirurgias. "Com mais tecnologia, vamos atrair mais pacientes", diz Staffa Filho, diretor financeiro do hospital. Para este ano, as perspectivas do setor não são as mais animadoras. "Até hoje ainda não conseguimos reajustar os preços de nada porque tanto as operadoras quanto os hospitais estão em crise", explica Balestrin, da Anahp. Mascarenhas, do Nove de Julho, diz estar "tenebroso". "Esperamos pelo menos conseguir acompanhar o índice de inflação", diz ele.