Título: Outubro começa com abundância de dólares na conta externa do país
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 22/10/2004, Finanças, p. C-2

O fluxo de dólares para o Brasil voltou a ficar francamente positivo em outubro, deixando para trás uma seqüência de quatro meses com resultados negativos registrada a partir de junho, quando as incertezas sobre a alta de juros americanos reduziriam a liquidez a países emergentes. Neste mês, até o dia 19, houve uma "sobra" de US$ 1,521 bilhão no mercado de câmbio. Dados apresentados pelo Banco Central mostram que, por trás dessa recuperação, está uma série de fatores positivos: o retorno dos investimentos estrangeiros diretos; a elevação na taxa de rolagem da dívida externa privada; a queda das remessas pelas contas CC-5; e até um atípico resultado positivo em conta corrente, algo não esperado devido à grande concentração de pagamentos de juros da dívida em outubro. Como ocorreu em todos os meses deste ano, o fluxo de dólares do comércio exterior ficou positivo, em US$ 1,981 bilhão. A surpresa ficou por conta do déficit relativamente baixo (US$ 269 milhões) no segmento de câmbio financeiro, por onde cursam as operações de serviço, os pagamentos de juros e dividendos e os movimentos de capitais, como empréstimos e investimentos diretos e em carteira. Para se ter uma idéia da mudança de humor do mercado internacional, em junho, quando o país foi afetado pelas incertezas sobre os juros americanos, o déficit neste segmento de câmbio chegou a US$ 3,993 bilhões. Os números parciais de outubro apresentados pelo BC ajudam a entender porque está havendo sobra de dólares no mercado de câmbio. Os investimentos estrangeiros diretos deram sinais de retorno, com ingresso de US$ 1,1 bilhão em outubro, até o dia 21, contra US$ 646 milhões em setembro. O BC trabalha com a expectativa de que cheguem a US$ 1,6 bilhão no mês. No caso, trata-se preponderantemente de ingresso efetivo de dólares, e não de efeitos contábeis como ocorrido em agosto, quando se concretizou a fusão das cervejarias AmBev e Interbrew. Houve ainda uma melhora no índice de rolagem da dívida externa privada. O percentual de renovação dos débitos vencidos foi de 51%. O percentual ainda é menor do que o usado pelo BC nas suas projeções do balanço de pagamentos de 2004 e 2005 (70%), mas representa uma recuperação em relação à taxa de 26% de renovação observada em setembro. Em outubro, os vencimentos da dívida externa privada somam US$ 1,208 bilhão. Outro fator que vem contribuindo positivamente para o saldo positivo no mercado de câmbio é a queda nas remessas via contas CC-5. Até 19 de outubro, as saídas líquidas somaram US$ 191 milhões, bem abaixo dos US$ 813 milhões de setembro e dos US$ 2,110 bilhões de agosto. O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, disse que os resultados negativos daqueles meses de deveram a algumas operações pontuais de grande valor - no caso, empréstimos que empresas brasileiras fizeram a residentes no exterior. O resultado em conta corrente deve ficar positivo neste mês, o que também contribui para a abundância de dólares - a previsão do BC é de um saldo positivo de US$ 900 milhões. "É um resultado muito bom para um mês de outubro, em que há forte concentração de pagamentos de juros da dívida externa", afirmou Lopes. Somente até o dia 21 de outubro, os pagamentos de juros somam US$ 1,334 bilhão, bem acima dos US$ 842 milhões no mês inteiro de setembro. A diferença se deve a fatores sazonais: em abril e outubro são feitos os pagamentos de encargos dos "bradies" (títulos da dívida externa renegociada em 1994). Os compromissos do setor público não financeiro em outubro somam US$ 1,049 bilhão. O saldo positivo no mercado de dólares vem sendo completamente absorvido pelos bancos. O conjunto de instituições financeiras, que no encerramento de setembro registrava uma posição vendida de US$ 598 milhões, passou a manter uma posição vendida de US$ 957 milhões. Ou seja, em apenas três semanas os bancos absorveram um total de US$ 1,555 bilhão no mercado.