Título: Novo caso de "vaca louca" nos EUA pode favorecer o Brasil
Autor: Alda do Amaral Rocha
Fonte: Valor Econômico, 27/06/2005, Agronegócios, p. B13
Bovinos Descoberta deve adiar reabertura de mercados do Japão e da Coréia à carne americana, dizem analistas
A confirmação, na sexta-feira, do segundo caso da doença de "vaca louca" em um animal dos Estados Unidos deve adiar ainda mais as pretensões americanas de retomar as exportações para mercados como Japão e Coréia do Sul e mais uma vez beneficiar indiretamente as vendas externas brasileiras de carne bovina, segundo analistas e fontes do setor de exportação. Japão, Coréia e outros países asiáticos suspenderam as compras de carne bovina dos Estados Unidos após o surgimento do primeiro caso da encefalopatia espongiforme bovina (BSE, na sigla em inglês) em um animal em Washington, em dezembro de 2003. Com a confirmação do segundo caso, a avaliação é que as negociações para a retomada devam ser afetadas. Mas, segundo a agência japonesa Kyodo, o secretário de Agricultura americano, Mike Johanns, disse, na sexta, que o novo caso da doença não afetará as conversações em curso para suspender o embargo. O secretário afirmou que o Japão também entende o mesmo, observando que o animal, já incinerado, não foi para a cadeia de alimentos e tinha pelo menos oito anos. Pela reabertura planejada pelo Japão, seriam permitidas importações de carne de animais com idade até 20 meses. Antes da descoberta da enfermidade nos EUA, o Japão era o maior importador de carne bovina americana. Para José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, no entanto, os EUA não devem mais contar com a recuperação esperada para as exportações este ano. Em 2004, os embarques americanos caíram para 150 mil toneladas ante 1,13 milhão no ano anterior. "Eles esperavam conseguir 250 mil toneladas, mas nem isso devem atingir", disse. Ferraz explicou que a doença nos Estados Unidos fez com que o Japão passasse a depender da carne da Austrália que, por sua vez, deixou mercados descobertos e abriu espaço para o produto brasileiro avançar. Exemplos disso são o Egito, países do Oriente Médio, Rússia e a própria União Européia. Um agravante este ano é que a Austrália enfrenta outra seca, observou Ferraz, o que leva ao abate de animais jovens e ao "desfalque" do rebanho e restrições na oferta de carne bovina do país. Com o novo caso de BSE nos EUA, países da Ásia, como Japão e Coréia, devem seguir dependentes da Austrália. Apesar de considerar que novas oportunidades podem se abrir para a carne brasileira, Ferraz mantém sua previsão de uma exportação de 2,1 milhões de toneladas pelo Brasil este ano. Mas não é impossível que fique acima desse número, reconheceu. Antônio Camardelli, diretor da Abiec (reúne os exportadores), acredita que a "vaca louca" nos EUA pode ter reflexos nas negociações do Brasil com o Japão para venda de carne bovina in natura. O Japão não compra o produto brasileiro pois não aceita o critério de regionalização para febre aftosa, adotado pela OIE - Organização Internacional de Epizootias. O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, disse que não acredita que o episódio terá um efeito imediato nas exportações brasileiras de carne bovina. Segundo ele, é preciso continuar os trabalhos junto a países como Japão e Coréia, "para comprovar que a regionalização das áreas livres de aftosa no Brasil é uma condição essencial para um país da grandeza territorial que nós temos". Camardelli acrescentou que considera a notícia de um novo caso de BSE negativa, pois afeta a imagem da carne bovina. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o animal, cujos testes para a doença deram originalmente negativos, teve a enfermidade confirmada após novo teste na Veterinary Laboratory Agency, na Inglaterra. Num comunicado, o secretário americano Mike Johanns disse que os cientistas do USDA devem trabalhar com especialistas internacionais para desenvolver um novo protocolo que inclua testes confirmatórios duplos no caso de um novo teste "inconclusivo" para BSE. Mas, conforme a Dow Jones Newswires, questões como a origem do animal doente e de como ele foi infectado permaneceram sem resposta após uma longa entrevista coletiva. O USDA informou que o animal infectado foi entregue a uma planta que processa animais mortos por doenças ou que estejam com dificuldades de caminhar em decorrência de lesões e que não servem para o consumo humano, mas não informou onde a unidade estava localizada. O secretário Mike Johanns disse ainda que nada sobre o animal seria confirmado até que o trabalho epidemiológico esteja finalizado. Ele reconheceu que o USDA quer "ser muito, muito cuidadoso" em relação ao caso. John Clifford, vice-administrador para serviços veterinários do USDA disse que uma pessoa informou ao departamento de onde veio o animal infectado, mas o USDA quer confirmação científica antes de divulgar a informação.