Título: O difuso foco da educação no Brasil
Autor: Dieter Kelber
Fonte: Valor Econômico, 28/06/2005, Opinião, p. A10
De tempos em tempos, o assunto educação aparece com mais importância nos canais de comunicação, especialmente em períodos de transição de governos (federal, estadual ou municipal) ou quando surge algum fato político relevante. São anunciadas novas medidas, novos procedimentos, novos investimentos e tantas outras novidades que nos levam a acreditar que em curto espaço de tempo teremos grandes e exemplares resultados. Entretanto, independente do desenvolvimento favorável que se tem alcançado, a situação continua preocupante e longe de ser, no mínimo, satisfatória. Recentemente, o debate tem se concentrado nos rumos da graduação, através da reforma universitária, e de verbas adicionais para o ensino médio e fundamental. Estes são assuntos inquestionavelmente relevantes e importantes, mas fogem do principal ponto que deveria ser priorizado na educação brasileira: conduzir todos os esforços para, o mais cedo possível - ainda na educação infantil -, as crianças comecem a aprender, preparando-as para integrar a sociedade do conhecimento. Segundo levantamento realizado pelo Ministério da Educação em parceria com o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), em 2002, do total de alunos matriculados no ensino fundamental, apenas 7,6% concluíram o curso. Ou seja, aproximadamente 90% dessas crianças estão com seu futuro comprometido, principalmente em termos profissionais e de contínuo desenvolvimento. Dificilmente qualquer especialista da área irá discordar que, à luz das novas descobertas sobre o funcionamento do cérebro, o nosso foco deve ser o seu desenvolvimento, de forma objetiva, abrangente e completa. Para isso, é preciso contar não só com as estruturas educacionais formais, mas com as famílias, que devem ser orientadas e estimuladas a participarem ativamente da educação dos filhos. Nunca é demais citar o sucesso dos descendentes de asiáticos nos vestibulares. Embora representem menos de 2% da população, conquistam mais de 13% das vagas. A vantagem deles é a própria cultura, que prioriza a educação e o acompanhamento da família, incentivando e participando, para um bom desempenho escolar. Também é preocupante observar que algumas funções estabelecidas pela Constituição Federal brasileira não tem trazido os resultados esperados. Singular a situação que encontramos em alguns municípios que tinham uma escola única integrada (ensino fundamental e médio), num mesmo terreno e num mesmo conjunto de prédios, e que agora são divididas por um muro "burocrático", apenas para delimitar as responsabilidades, não importando o resultado final. Assim, nem município, nem Estado, nem o governo federal se sentem responsáveis pela educação integral. Cada um alega ter feito a sua parte, porém ninguém se sente responsável quando o indivíduo termina a faculdade sem conseguir interpretar textos em português, como constatado ano após ano nos exames da OAB.
Soluções para a educação esbarram nas dificuldades políticas de criar programas de médio a longo prazo
No Brasil, temos aproximadamente 15 milhões de jovens e adultos analfabetos e mais que o dobro de analfabetos funcionais (indivíduos que freqüentaram algumas classes do ensino fundamental, mas não compreendem o que lêem). As autoridades nos bombardeiam com os informes relacionados à diminuição do analfabetismo, porém, esquecem de divulgar o número dos semi-analfabetos - no mundo empresarial, o indivíduo alfabetizado é aquele que, além da língua portuguesa (que devemos considerar como commodity), domina a língua inglesa, a informática e tem boa capacidade de aprendizagem. Se quisermos atingir melhores resultados, é imprescindível ter um foco mais afinado com as reais necessidades, tão bem conhecidas dos especialistas da educação. A base, a educação infantil e fundamental, deve ter prioridade total, caso contrário continuaremos gerando semi-analfabetos que terão grande dificuldade para alcançar melhor participação na sociedade. É inadmissível que as crianças, ao ingressarem no ensino médio, não dominem a linguagem. Sem ela é impossível atingir estágios adequados de autodesenvolvimento. Essa priorização não deve ser entendida como mero aporte de recursos, mas sim como um tipo de formação obrigatória. As soluções não são difíceis do ponto de vista técnico, nem financeiro. Esbarram muito mais nas dificuldades políticas dos poderes Executivo e Legislativo em chegar a um consenso sobre a criação de um programa de médio e longo prazo que independa de correntes partidárias ou interesses eleitorais. Novos programas são introduzidos, desprezando um foco mais apurado de prioridades. Desprezam-se resultados de pesquisas e estudos sobre o desempenho dos alunos. Atiça-se uma disputa ilógica entre o ensino público e privado, quando deveriam ser complementares. E o resultado é conhecido de todos. Cada vez mais os jovens que não tiveram uma adequada educação infantil e fundamental ficam desesperançados, trazendo como conseqüência um problema por demais preocupante para todos os municípios: o aumento do consumo de drogas e álcool. Se não integrarmos as crianças a um mundo no qual o futuro seja esperançoso, não sairemos da vala comum de uma gestão educacional incompetente. É imprescindível que as lideranças tenham coragem de desempenhar o bom exemplo. Também é importante que não fiquemos esperando a elaboração de programas milagrosos, que irão resolver de uma única só tacada todos os problemas educacionais vigentes. Algumas ações realizadas por instituições municipais e estaduais, ONGs, devem servir de referência, como por exemplo o aumento de atividades pedagógicas fora das quatro paredes dos prédios escolares. Aproveitar pessoas aposentadas, em especial as avós, para trabalhos em creches, é uma alternativa bastante interessante para complementar um ensino pedagógico com a fixação dos valores da sociedade. Introduzir a filosofia no ensino médio e um reforço da língua portuguesa na graduação (para os alunos abaixo do nível mínimo) são outros exemplos que podem contribuir significativamente para melhorar a qualidade do ensino como um todo. É preciso afunilar o foco, ou seja, priorizar o ensino infantil e fundamental e corrigir, na medida do possível, desvios do ensino médio e universitário em relação à realidade profissional e às exigências da sociedade do conhecimento.