Título: Inadimplência cresce e já ameaça vendas do varejo
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 30/06/2005, Brasil, p. A2
Conjuntura Total de clientes com contas atrasadas atinge 52% em junho
Os níveis de inadimplência e de endividamento do consumidor começam a preocupar lojas e economistas e podem impactar negativamente o consumo no segundo semestre. Em junho, a porcentagem de endividados com contas em atraso chegou a 52%, a maior desde o mesmo mês do ano passado. O comprometimento da renda com dívidas também está em trajetória ascendente e atingiu 39%, segundo pesquisa da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio). Em janeiro, esse percentual era de 32%. Na rede Lojas Cem, com unidades no interior paulista e mineiro, a inadimplência chegou a 4,5% em maio e manteve-se nesse patamar em junho, ante uma taxa média de 3,5% no ano passado. Segundo o superintendente da empresa, Valdemir Coleone, desde 1997 a taxa não chegava a esse percentual. Na Bestmix/Panashop, o presidente Adhemar Luiz Volpe, conta que a inadimplência (cheques devolvidos) atingiu o recorde de 2,2% em maio e ela sempre oscilava na casa do 1%. "Em junho, esse indicador deve recuar, mas permanecerá em um patamar alto", diz. Os dois executivos creditam o aumento da parcela de clientes que não conseguem pagar as dívidas à estabilidade da renda e ao alto endividamento da população. Para José Antônio Praxedes Neto, vice-presidente da Telecheque, empresa que atua na área de de verificação e garantia de cheques em todo o país, foi criada uma "bolha de crédito". Ele explica que, de dezembro para cá, o consumidor passou a comprar bens de maior valor com prazos de pagamento estendidos. Em dezembro, segundo levantamento da Telecheque, o valor do cheque médio era de R$ 99. Em maio, ele estava em R$ 123. Ao mesmo tempo, o prazo no final do ano oscilava entre 60 e 90 dias e agora varia entre 90 e 120 dias. A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) apurou que em maio a taxa de inadimplência ficou em 7,4%. A taxa mostra a diferença entre novos registros de consumidores em atraso e pessoas que pagaram débitos antigos e pondera esse total pelo volume de consultas ao sistema de vendas a prazo feitas três meses antes. O índice de maio é menor do que o de abril (7,7%), mas foi o maior para o mês de maio desde 2002, quando bateu 8,8%. Na série histórica, o número também só perde para abril deste ano e para junho de 2002 (8%). A rede de varejo catarinense Salfer, que também está presente no Paraná, credita o aumento dos clientes devedores ao alongamento do prazo. A quantidade de inadimplentes subiu de 2,8% no final de 2004 para 3,5% em junho. As parcelas, por sua vez, foram estendidas de seis para nove meses no mesmo período. "Teremos de ser cada vez mais cautelosos na concessão de crédito", enfatiza Valdemiro Halffman, diretor da empresa. Ele diz que o primeiro semestre deste ano foi muito bom e o volume de vendas cresceu em torno de 25% sobre igual período do ano passado. No entanto, o executivo não acredita que a renda do trabalhador vai mostrar recuperação no curto prazo. Halffman condiciona a continuidade do aumento das vendas ao crédito. "Tem gente terminando de pagar as prestações do ano passado. Minha expectativa é que esses clientes voltem a se comprar de forma financiada". Mas o diretor não está totalmente otimista. Segundo ele, se o desemprego não cair sensivelmente, "a tendência é que o consumo estacione ou até mesmo dê um passo para trás". Na avaliação de Praxedes, a alta da taxa básica de juros (Selic) foi repassada de forma diluída pelo varejo, que, ao invés de aumentar o valor de cada prestação, elevou o número de parcelas para suavizar os juros mais altos. Ou seja, o valor final dos produtos aumentou, só que o rendimento médio real do trabalhador ficou apenas 0,3% maior entre dezembro e maio. "A renda está comprometida e o custo do comprometimento subiu. Vamos ter queda no consumo nos próximos meses. O dinheiro das famílias será canalizado para pagar dívidas e não para adquirir novos financiamentos", ressalta. A Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e a Fecomercio já esperam que as vendas do varejo cresçam em níveis menores a partir de julho. Marcel Solimeo, economista da ACSP estima que as consultas ao Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC), que medem as vendas a prazo, subam cerca de 4% nos próximos meses, abaixo do 5,8% apurados em maio. Para Solimeo, o varejo já começa a ser mais rigoroso na concessão do crédito. A combinação de uma renda que não se recupera com uma taxa de inadimplência em crescimento vai fazer com que os bancos e financeiras pisem no freio. Fábio Silveira, da consultoria MS Consult partilha da opinião de Solimeo. Para ele, embora a massa salarial tenha atingido R$ 13,7 bilhões - o que representou crescimento de 3,4% em relação a igual mês do ano passado, conforme dados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE -, esse resultado só foi alcançado pelo incremento de 3,8% da população ocupada, pois o rendimento médio real caiu 0,3%. Isso deixa claro que a renda não tem dado fôlego para o consumo. Nos próximos meses, o economista estima que o nível de pessoal ocupado apresente evolução positiva, mas o rendimento real médio não deve se elevar, pois há muita mão-de-obra disponível no mercado. Com isso, a expectativa é que a massa de rendimento real registre elevação de 3,4%, em função do crescimento de 3,2% na população ocupada e de 0,2% na remuneração real média. Para Silveira, os consumidores deverão usar a maior parte do pequeno aumento de renda, proporcionada pelos reajustes salariais e pela alta do salário mínimo, ainda para quitar dívidas. "Vai sobrar muito pouco para o consumo", diz. Dados nacionais da Serasa apontam que a inadimplência dos consumidores aumentou em maio. O atraso no pagamento de dívidas cresceu 3,1%, na comparação com abril de 2005, e 14% em relação a maio de 2004. No acumulado dos cinco primeiros meses de 2005, o aumento foi de 13,6% em relação ao mesmo período do ano passado. De acordo com a André Chagas, economista da entidade, há probabilidade de novas altas no futuro, por conta do crescente endividamento da população. Sua avaliação é que mesmo com uma taxa Selic estável ou queda nos próximos meses, a inadimplência vai pressionar os custos dos bancos e contribuir para dificultar a diminuição dos juros praticados na na ponta - aqueles cobrados do consumidor.