Título: Governo retruca com investigação da compra de votos
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 30/06/2005, Política, p. A9
Na tentativa de impedir que fosse instalada a CPI Mista do Mensalão, o governo apressou os procedimentos para instalar, só na Câmara, a CPI da compra de votos, na qual pretende investigar também o governo passado. Para isso, os deputados governistas conseguiram até que fosse editada uma edição extraordinária do Diário Oficial, para revogar uma medida provisória que estava trancando a pauta de votações na Câmara. Retirada a MP, a CPI da Compra de Votos passou a ter sua tramitação desobstruída. "Nada do que aconteceu aqui hoje (ontem) é comum", afirmou Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA). Enquanto a oposição lutava pela CPI do Mensalão, que seria mista e focada nas denúncias de compra de votos, por parte do PT, aos deputados do PL e do PP , o governo pretendia aprovar e criar a CPI da Compra de Votos, que além de ser restrita à Câmara - onde a base aliada é mais folgada - analisaria as denúncias de compra de votos para a emenda constitucional que permitiu a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. O presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), havia prometido ler e criar a CPI do Mensalão na noite de quarta-feira. Os governistas, então, passaram a tentar criar e instalar a CPI da Compra de Votos antes da sessão do Congresso. O problema é que a CPI da Câmara só poderia ser criada após a liberação da pauta de votações, que estava trancada com a Medida Provisória (MP) 249, que cria a Timemania, loteria para salvar times de futebol em dificuldades financeiras e por outros três projetos de lei com urgência constitucional. Foi então que o governo começou a atuar. No início da tarde o governo editou uma edição extraordinária do Diário Oficial com a MP 254, que revogava a MP da Timemania. Como o governo retirou a urgência constitucional dos três projetos de lei, a pauta de votações ficou livre. Imediatamente foi aprovada, após muito alvoroço e reclamações da oposição, a urgência para o projeto de resolução que cria a CPI da Compra de Votos. Quando se iniciaram as discussões para o mérito da resolução que cria a CPI da Compra de Votos e o governo tinha a vitória como certa, a oposição aplicou seu contragolpe: o Senado aprovou a MP 241, que abre créditos extraordinários para o Ministério da Defesa com modificações, para que ela voltasse para a Câmara. Quando isto aconteceu, com a ausência de Severino Cavalcanti (PP-PE), a Câmara estava sendo presidida pelo pefelista José Carlos Nonô (PFL-BA), que fez, então, a rápida leitura da nova MP que chegou do Senado, que, na sua interpretação, passou a trancar a pauta. O governo então avisou Severino, que voltou a assumir a presidência da Câmara e afirmou que a MP 241 só trancaria a pauta de votações após a sua publicação no Diário Oficial de amanhã. Então a oposição apresentou uma questão de ordem contra o entendimento da mesa, com pedido de efeito suspensivo para, na prática, evitar a votação de qualquer projeto na Câmara. O governo, por sua vez, mostrou força e derrubou o efeito suspensivo. Começou-se, imediatamente, a apreciação do mérito da criação da CPI. Até o fechamento desta edição os deputados ainda votavam a criação da CPI, porém o governo deveria conseguir aprová-la. Independentemente do que viesse a ocorrer na noite de ontem, muitas novidades poderão surgir hoje, último dia legislativo do semestre. Renan transferiu para hoje a sessão do Congresso.