Título: Para Blairo Maggi, além da crise política, governo tarda a perceber desaceleração
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 30/06/2005, Política, p. A9
Ao deixar o Palácio do Planalto ontem, depois de encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi (PPS), avaliou que a crise política não vai acabar bem e que o governo já foi atingido. O governador chamou atenção para o fato de que o governo não enxerga que o país está entrando numa crise econômica. "Quero advertir o seguinte: nós temos uma crise política e estamos indo para uma crise econômica e o governo não está se apercebendo dela ainda, como demorou a se aperceber da crise política." Maggi esteve no Planalto com mais três governadores de Estados agrícolas para tratar das reivindicações dos ruralistas, que fizeram um "tratoraço" em Brasília. Segundo os governadores, a crise política não foi tema da conversa com o presidente. Esteve com Lula, nesse grupo, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), que, no início do mês, deu entrevista dizendo ter alertado o presidente há um ano de que estava havendo pagamento de "mesada" a deputados. Marconi afirmou que não ficou constrangido durante o encontro de ontem. "Não fiz nenhum anúncio para prejudicar ninguém. Dei o depoimento naquela época para ajudar o Brasil. O presidente me recebeu muitíssimo bem com todo respeito", ressaltou o tucano. O governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto (PMDB) - outro participante da reunião - afirmou não ter discutido com o presidente a situação do PMDB com o governo e sua posição contrária à troca de apoio por cargos, mas, em entrevista no Planalto, fez questão de reforçar o que pensa. "Trocar o apoio por mais espaço no governo, pareceria uma coisa muita fisiológica." Rigotto acrescentou que o PMDB vai ajudar o governo para que a crise política não afete a economia e na definição de uma agenda positiva, com votação das reformas política e tributária. Blairo Maggi avaliou que o governo já foi atingido pela crise porque não há como separar as coisas. "Como você separa o ministro (José Dirceu) que vivia aqui dentro do Palácio e, agora, porque ele não está mais aqui, não tem nada a ver. Não pode." Maggi ressaltou, no entanto que, até agora, a figura do presidente não foi afetada. "Acho que ninguém tem consistência hoje para falar este tipo de coisa. Agora, se poderá chegar no futuro, eu não sei, isso é outro departamento." Maggi relatou a conversa que teve com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, sobre a situação da economia. "Falei para o ministro: sua política de câmbio é suicida, desestruturante e ela vai acabar com tudo que está aí. Nós já vimos este filme antes". Segundo o governador, Palocci ponderou que o câmbio é flutuante e ele nada poderia fazer. "Eu então respondi: baixa os juros porque temos muitos dólares no País. Quando falei baixa o juro, ele respondeu: aí a inflação sobe. Será que só o Brasil precisa ter uma taxa de juros, a mais cara do mundo, para controlar a inflação?"