Título: Dólar acirra disputa entre unidades
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 01/07/2005, Eu & Investimentos, p. F2

Indústria Empresas gaúchas enfrentam perda de espaço para fábricas na Turquia ou em países asiáticos

A desvalorização do dólar e a conseqüente compressão das margens nas exportações frente aos custos em reais têm colocado grandes exportadores gaúchos como Marcopolo, Randon e AGCO diante de situações delicadas. De um lado, as empresas enfrentam negociações "desgastantes" com os clientes a cada renovação de contrato para repassar aos preços parte das perdas cambiais, explica o diretor corporativo de relações com investidores do grupo Randon, Astor Schmitt. De outro, temem a perda de competitividade ante concorrentes internacionais. A AGCO, fabricante de tratores e colheitadeiras com fábricas em Canoas e Santa Rosa, conhece bem o risco. A empresa enfrenta a concorrência de outras unidades do próprio grupo espalhadas pelo mundo no fornecimento de máquinas à matriz americana ou aos escritórios de venda na Europa. "Estamos perdendo alguns negócios para fábricas em outros países, como a Turquia", diz o gerente de exportações, André Rorato. Já a Randon está percebendo uma "agressiva participação" de fabricantes coreanos e chineses de semi-reboques rodoviários no mercado norte-americano, afirma Schmitt. O segmento representa cerca de um terço das exportações do conglomerado gaúcho, que tem ainda forte presença nos mercados sul-americano, europeu, africano e do Oriente Médio e deve faturar US$ 150 milhões com vendas ao exterior neste ano. Na linha de autopeças e sistemas para veículos comerciais, que correspondem aos dois terços restantes dos embarques da Randon, o Brasil ainda é visto como uma plataforma "muito boa" de exportações, tanto em função da qualidade quanto dos preços dos produtos, diz o executivo. Mas será "muito complicado" manter esta condição se o quadro de desequilíbrio cambial persistir por mais dois a três anos, afirma o diretor. Maior fabricante latino-americana de carrocerias de ônibus, a Marcopolo também teme o aumento da concorrência externa. "Com os preços que somos obrigados a praticar podemos perder competitividade se no médio prazo os chineses resolverem buscar o mercado internacional", afirma diretor de relações com investidores, Carlos Zignani. Segundo ele, por enquanto, a produção da China no setor atende à demanda doméstica de 40 mil ônibus por ano, ante 24 mil no Brasil. Com fábricas no Brasil, Argentina, Colômbia, México e Portugal, a Marcopolo conseguiu aplicar reajustes de 10% em dólar nas vendas para a América do Sul e de até 5% nos negócios no México e África do Sul. Os aumentos, porém, foram insuficientes e embora as vendas físicas no exterior tenham superado pela primeira vez os negócios domésticos nos cinco primeiros meses do ano, com 3.350 unidades contra 3.342, as margens estão apertadas, diz Zignani. A Marcopolo obtém 55% de sua receita líquida, projetada em R$ 1,74 bilhão neste ano (ante R$ 1,6 bilhão em 2004) com as exportações a partir do Brasil ou as vendas diretas das controladas no exterior e a perda de rentabilidade já está provocando danos. O plano de investimentos para o ano foi reduzido de R$ 50 milhões para R$ 30 milhões por conta basicamente do congelamento de projetos de ampliação e modernização das plantas externas e em abril perto de 100 pessoas das áreas administrativas foram demitidas em Caxias do Sul, sede da empresa que tem 7,5 mil funcionários no Brasil e 2,5 mil no exterior. A AGCO vem conseguindo repassar parte da defasagem cambial nas vendas para a América do Sul, onde os países são mais dependentes da produção brasileira, mas na Europa e Estados Unidos é muito difícil compensar o "duplo impacto" da desvalorização do dólar e do aumento dos custos em real, afirma Rorato. Com a perda de rentabilidade e competitividade, as exportações de tratores da empresa devem cair até 25% este ano em comparação com as 12.476 unidades de 2004. Nas linhas de colheitadeiras, a queda pode chegar a 30% ante as 1.155 máquinas embarcadas no ano passado. Mesmo assim, a participação das exportações subiu de 47% em 2004 para 70% das vendas totais de 615 colheitadeiras nos cinco primeiros meses deste ano devido a uma queda ainda maior no mercado doméstico, relata o gerente. Nos tratores, a fatia aumentou de 56% em todo o ano passado para 69% das 9.319 máquinas negociadas de janeiro a maio. No total, as vendas externas responderam por pouco mais da metade do faturamento de US$ 700 milhões da empresa. Conforme Rorato, a AGCO procura desenvolver relacionamentos de longo prazo com os clientes, agregando serviços e atendimento pré e pós-venda, para evitar que o foco dos negócios recaia somente sobre o preço dos produtos. "Mas isto funciona até certo ponto", admite o executivo. "Em alguns casos não chegamos a perder a venda, mas o cliente retarda a decisão de compra à espera de melhores condições", comenta. Tanto a AGCO quanto a Marcopolo e a Randon entendem que um patamar cambial mais adequado seria de R$ 2,80 a R$ 3 por dólar e para nenhuma delas a recente "MP do bem", editada pelo governo federal com benefícios fiscais para as grandes exportadoras, tem efeitos relevantes porque suas vendas externas não superam 80% do total dos negócios. Schmitt, da Randon, porém, confia que a situação atual é "temporária" e afirma que o grupo não irá abdicar de seu objetivo estratégico de buscar uma "progressiva inserção no mercado internacional", tanto no segmento de implementos rodoviários e caminhões fora-de-estrada quanto no de autopeças e sistemas. O executivo lembra que a meta do conglomerado é atingir um volume de exportações superior a US$ 1 bilhão até 2012. Em 2003 e 2004, o total chegou a US$ 119 milhões e se a previsão para 2005 se confirmar, o montante em três anos atingirá US$ 343 milhões. Para este ano, a Randon prevê faturamento bruto total de R$ 2,8 bilhões, ante R$ 2,3 bilhões em 2004.