Título: Mercado de alto padrão cresce em Salvador
Autor: Patrick Cru
Fonte: Valor Econômico, 05/07/2005, Empresas, p. B4

Salvador vive em pleno "boom" do mercado de imóveis de alto padrão, com a sucessão de novos empreendimentos que consomem até R$ 100 milhões em investimentos. A cada mês, pelo menos um novo condomínio considerado de luxo é lançado ou inaugurado na cidade. É um contraste com o título de "capital nacional do desemprego", segundo alardeia a oposição e lamentam os próprios membros da prefeitura. Na região metropolitana, o índice de desemprego é de 25,8%, o maior entre as capitais. Neste mês começam as obras de construção do Porto Trapiche Residence, que tem sido apresentado como o primeiro loft com píer de atracação para embarque e desembarque do país. O empreendimento exigirá investimentos de cerca de R$ 50 milhões e fica em frente à Baía de Todos os Santos. A poucos metros dele fica o Elevador Lacerda, um dos cartões postais mais famosos da cidade. Dos 88 apartamentos, cerca de 60 já foram vendidos. "Existe uma demanda reprimida em Salvador por construções desse nível", diz Pedro Carlos Bocca, diretor da Atlântida Engenharia e Empreendimentos. A construção vem na esteira do projeto de revitalização do Comércio, bairro histórico da capital que fica ao pé do Elevador Lacerda. Empresas têm sido atraídas para a região com medidas como a redução de 2% no imposto sobre serviços (ISS). Parceira da Atlântida na construção do Porto Trapiche, a Santa Helena Construtora também tem apostado em empreendimentos de alto padrão em Salvador. Está em andamento o Morada Real do Horto - que oferece apartamentos por cerca de de R$ 850 mil - e começam em janeiro de 2006 as obras do Edifício Mansão Lev Smarcevscki, com 25 unidades ao preço mínimo de R$ 700 mil - em ambos trabalha também a RPH Engenharia. A Santa Helena e a Sarti Mendonça Engenharia começaram em junho a construção do Villa Costeira, condomínio de 40 casas na zona norte de Salvador e com preço mínimo de R$ 500 mil. Os sucessivos lançamentos de empreendimentos de alto padrão na cidade guardam diferenças com fenômeno semelhante registrado nas cercanias da capital, particularmente no litoral norte. Lá, os condomínios muitas vezes ficam dentro ou próximos de grandes resorts que já existem ou estão em fase de implantação, como Costa do Sauípe, Reserva Imbassaí, Iberostar e Praia do Forte. O público também é distinto: no litoral norte abundam os estrangeiros, particularmente portugueses, espanhóis e italianos, interessados em ter uma casa para fugir do inverno europeu. Em Salvador, a procura é feita maciçamente por gente que já mora na cidade, como empresários e profissionais liberais. As construtoras não são unânimes nos argumentos que tentam explicar o crescimento da procura por imóveis de luxo na capital com o maior índice de desemprego do país. Pedro Bocca, da Atlântida Engenharia, fala em "demanda reprimida", mas não sabe precisar o que acelerou esse nicho nos últimos tempos. Paulo Resende, da Santa Helena, faz outra leitura. "Com os juros altos, o financiamento de bancos ficou mais difícil. A busca das construtoras e incorporadoras por empreendimentos de alto padrão ocorre porque nesse nicho a inadimplência é menor", disse. "Se houver inadimplência, a obra pára." Marta Yule, da ARC Engenharia, nem arrisca uma análise sobre os motivos do aquecimento do mercado de imóveis de luxo em Salvador. "Ainda não identificamos uma razão para isso", disse ela, "mas o mercado está aquecido e ainda tem espaço para crescer." A empresa lançou no fim de 2004 o Jardim Botânico, condomínio fechado de casas que consumirá investimento de R$ 43 milhões nas três etapas da obra. A ARC vai lançar ainda este ano um novo condomínio de apartamentos de alto padrão. A Odebrecht está à frente de um dos maiores empreendimentos do setor na cidade. Lançado em março e com entrega agendada para outubro de 2008, o Vale do Loire, que tem duas torres com 25 pavimentos cada uma, receberá R$ 100 milhões em investimentos. Sua estrutura contará com uma sala de cinema, duas quadras de tênis e uma piscina com raia semi-olímpica, de 25 metros, entre outras características. "O fator de risco (de inadimplência) é pequeno nas faixas mais altas", diz Djean Cruz, diretor de incorporação imobiliária da Odebrecht em Salvador. Ele acredita que o espaço para o surgimento de condomínios do porte do Vale do Loire é limitado - os apartamentos terão 328 metros quadrados. "Para até 150 metros quadrados ainda há espaço. As empresas vão se voltar para outro nicho", disse.