Título: Venda de celulares cresce até 50%, diz Merrill Lynch
Autor: Heloisa Magalhães
Fonte: Valor Econômico, 06/07/2005, Empreasa, p. B2
O crescimento da telefonia celular parece imune a crises. As operadoras devem fechar o segundo trimestre com vendas de 40% a 50% superiores ao mesmo período do ano passado. Com o estímulo das promoções do Dia das Mães e dos Namorados, entre abril e junho os novos acessos habilitados podem ter atingido de 7 milhões a 7,5 milhões, segundo a Merrill Lynch. Os dados ainda não são os oficiais da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), mas se confirmados mostram um volume no segundo trimestre semelhante às vendas do período de festas do Natal passado, quando 7,4 milhões de pessoas adquiriram celulares, de acordo com o órgão regulador. E, nos meses de abril a junho, as vendas foram muito superiores aos 4,9 milhões de telefones no mesmo período do já aquecido 2004. Recordes à parte, o analista-chefe da Merrill Lynch para a América Latina, Maurício Fernandes, avalia que a competição acirrada faz com que o ganho em volume terá gosto amargo para as prestadoras de serviços, pois continua não sendo proporcional ao aumento da geração de receita por cliente e da geração de caixa. As promoções para encarar a competição são que as operadoras têm de se proteger oferecendo tarifa melhor para o usuário. A maior parte dos que entram no mercado são clientes de menor poder aquisitivo, adeptos dos planos pré-pagos - que, no final de maio respondiam por 80,97% da planta. Têm sido pesados os investimentos em marketing e subsídios aos aparelhos. O Brasil está entre os países latino-americanos em que a receita média mensal por assinante (arpu, na sigla em inglês) mais tem caído. A receita das operadoras brasileiras caiu 13% no primeiro trimestre de 2005. Enquanto isso, na Venezuela subiu 20% porque a economia está favorecida pelo aumento do preço da gasolina, afirma Fernandes. A proporção de brasileiros com celulares ainda é baixa se comparada à dos países desenvolvidos, onde passa de 60% (o que significa no mínimo 60 pessoas em cada cem habitantes têm celular). No Brasil, esse índice era de 39% no fechamento do primeiro trimestre. Na Turquia, era de 51%; no México, de 39%; na Índia, de 5%; e, na China, de 27%. Mas então o que faz gigantes como Telefônica, TIM e América Móvil disputarem clientes no mercado brasileiro? Apesar da equação complexa, é a expectativa de retorno no longo prazo, explica Fernandes. "São operadoras internacionais com comportamento racional. O investimento está aí e está feito. Se uma delas, porque está ganhando pouco dinheiro, tira o pé do acelerador, o outro vai fazer o investimento por ela. É um mercado com apostas de longo prazo. Estão comprando usuários", diz. Fernandes é um dos responsáveis pelo relatório Matrix, da Merrill Lynch, que se tornou uma espécie de bíblia para o setor. Ele adiantou dados do último trabalho ao Valor. O analista lembra que, no caso brasileiro, os baixos resultados pesam nos preços das ações, mas não têm impacto tão profundo na capacidade financeira das teles. "As empresas são muito saudáveis", ressalta. Se por um lado a equação das operadoras é complexa, o crescimento acelerado está fazendo fabricantes de equipamentos como Siemens, Nortel e Ericsson rever para cima as previsões para 2005. A Siemens esperava que o país fechasse o ano com mais 18 milhões de usuários de celular, mas elevou a projeção para 22 milhões, diz o vice-presidente de telecomunicações, Aluízio Byrro. O executivo refere-se às novas habilitações, sem contar aqueles que compram um telefone para substituição. Já levando em conta esses dois universos, a Motorola informou ao Valor que espera vender neste ano entre 10 e 15% mais aparelhos do que em 2004. O presidente da Nortel, Rodrigo Moura, mais conservador que Byrro, prevê que o país fechará o ano com algo entre 80 milhões e 85 milhões de assinantes. O ano passado fechou com 65,6 milhões, 19,2 milhões a mais do que havia em dezembro de 2003. A manutenção do crescimento é que é festejada pelos fabricantes. Com o aumento do número de terminais, são necessários investimentos em infra-estrutura para suportar a ampliação do tráfego das operadora. "Não existe uma megaexpansão de rede como no passado, com investimentos de US$ 800 milhões a US$ 1 milhão de uma só vez. Mas o mercado está saudável e mais equilibrado. O que está mudando é que a guerra se acirrou, aumentou a necessidade das operadoras de rentabilizar ativos. Por isso, passaram a fazer compras mais gerenciadas e acompanhar os projetos", explica Abreu. O executivo destaca que é difícil imaginar por quanto tempo o mercado continuará crescendo de forma acelerada. "No meio do caminho tem muita coisa para acontecer. As operadoras precisam estabelecer limites para a queda de receita por assinante. A briga pelo cliente tem que dar lugar à briga pela rentabilidade. O mercado não estará sustentado com níveis de investimento tão agressivos para construir a base", afirma, fazendo referência aos pesados subsídios aos aparelhos.