Título: Lula anuncia reforma na segunda-feira
Autor: Raymundo Costa e Cláudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 08/07/2005, Política, p. A8
Crise Reunião do diretório do PT e negociação com PP definirão conclusão das mudanças ministeriais
A definição do novo comando do PT, prevista para este sábado, e a negociação com o PP devem levar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a arrematar a reforma ministerial só no início da próxima semana. Hoje, o presidente dá posse aos ministros anunciados antes da viagem à Escócia, para a reunião do G-8, e na segunda-feira de manhã Lula reúne o ministério para entronizar o PMDB no governo. A demora na conclusão da reforma paralisou o fluxo orçamentário do trimestre. Segundo explicação ouvida por um ministro, para evitar que os demissionários saíssem fazendo despesas de última hora. Na realidade, o Ministério do Planejamento aproveita o período para passar um pente fino no Orçamento para cortar gastos e remanejar recursos. Como não haverá tempo para gastar este ano os R$ 400 milhões previstos para o projeto de transposição do rio São Francisco, por exemplo, esses recursos serão realocados. Entre outros, haverá também um corte de R$ 150 milhões no gasto com as passagem aéreas. O pente-fino do Ministério do Planejamento permitirá que os novos ministros assumam com um Orçamento enxuto, com os recursos já realocados e prioridades definidas. Será um fim de semana de definições. Uma delas é sobre a saída do ministro Luiz Gushiken da Secretaria de Comunicação de Governo. Em conversa com Lula, o ministro avaliou que será o próximo alvo das denúncias, por causa de suas ligações com fundos de pensão, e que seria melhor sair. É possível que se torne assessor especial do presidente, se Lula decidir que o ministro realmente tem razão. No sábado, o PT decide se o deputado José Genoino continuará ou não à frente do partido. O ex-deputado só concorda em permanecer no cargo e na disputa à reeleição, se conseguir a unidade do campo majoritário, a corrente que controla o partido. É difícil: o senador Aloizio Mercadante (SP) ~conseguiu juntar uma "fração", integrada por deputados e prefeitos, que pede a renúncia do presidente petista. Na hipótese da renúncia de Genoino, o PT pode optar por um dos ministros do governo. O mais cotado é o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, mas Olívio Dutra (Cidades) e Tarso Genro (Educação) também são cogitados, embora não pertençam à tendência dominante no campo majoritário, chamada de Unidade na Luta. É o cenário que Lula espera decantar para definir as mudanças petistas. Em princípio, entre os petistas apenas mais Dutra e Ricardo Berzoini (Trabalho) deveriam sair. Para o lugar de Berzoini o cenário que Lula levou ao viajar contemplava o ministro Aldo Rebelo (Coordenação Política), apesar das resistências do PT à indicação. Na volta do presidente, o ministério de Berzoini - que volta à Câmara dos Deputados - pode tanto entrar numa composição política como ficar um sindicalista. Uma aposta é Luiz Marinho, o presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores). Com a eventual saída de Gushiken da Secom, Aldo Rebelo poderia ocupar a secretaria. Mas o nome do ministro aparece em mais de um cenário analisado pelo presidente. O mais provável é que ele fique no governo, de vez que não pretende se candidatar em 2006, uma das condições impostas por Lula ao novo ministério. Ao fatiar a reforma, Lula tenta fugir às pressões que as amplas discussões propiciavam: decide e anuncia. Muito embora o secretário do Tesouro tenha sido mencionado para o Ministério da Previdência, no lugar do senador Romero Jucá, ontem discutia-se no Palácio do Planalto sua indicação para a presidência do INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social), o que permitiria a indicação de um ministro político para a Pasta. Pode até ser o quarto ministério que o PMDB reivindica para conseguir compor a maior parte da bancada na Câmara. O Planalto chegou a deixar o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), de sobreaviso para a possibilidade de uma audiência hoje com Lula. A conversa não foi confirmada e Severino marcou viagem para às 9h da manhã para Pernambuco, de onde só volta às 15h de segunda-feira. Lula vai oferecer um posto ao PP. Severino, que nunca desistiu de indicar o deputado Ciro Nogueira (PP-PI), vai submeter o assunto à bancada. Pode ser o de um nome de fora do Congresso, como o embaixador Botafogo Gonçalves. O PC do B, partido com uma dezena de deputados que está super-representado no ministério, deve perder o Ministério dos Esportes, com a volta do deputado Agnelo Queiroz (DF) para a Câmara dos Deputados. O único representante do partido na Esplanada será mesmo o deputado Aldo Rebelo. O PSB continuará sendo representado pelo ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos. O presidente Lula gostaria de elevar o status do ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, que representa o PTB no ministério. Depois das denúncias do deputado Roberto Jefferson (RJ), o ministro é o seu principal interlocutor com o partido e uma segurança para que a sigla continue votando com a base do governo. Nesse caso, ele seria deslocado para um ministério maior. O problema é que Mares Guia gosta do lugar onde se encontra. No PT, voltou-se a discutir a indicação para a Coordenação Política. É quase certo que o presidente manterá o ministério, que já pensou em extinguir, e todas as apostas são de que a função será desempenhada pelo ministro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Jacques Wagner. Ontem, já se falava entre parlamentares dos partidos próximos a Lula que o presidente estaria analisando uma outra opção.