Título: Fiergs pede apoio político a Plano Delfim
Autor: Sérgio Bueno
Fonte: Valor Econômico, 11/07/2005, Brasil, p. A3

O presidente eleito da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Paulo Tigre, assume o cargo amanhã à noite defendendo a montagem de uma forte "base de sustentação política" do empresariado brasileiro à proposta de déficit nominal zero. Apresentada pelo deputado Delfim Netto (PP-SP) e vista com simpatia pelo governo federal, a idéia pode significar uma "blindagem" da economia contra a crise política atual porque colocará o debate nacional em um "novo patamar" e permitirá ao país discutir outros caminhos para o crescimento. Para o empresário, que é presidente do conselho de administração da DHB Componentes Automotivos e até agora ocupava uma das vice-presidências e o conselho de comércio exterior da Fiergs, a crise política não abalou a economia porque até agora não atingiu a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Isso mostra a maturidade política do país, mas a preocupação é: até quando conseguiremos manter esta situação?", indaga Tigre, que ficará no cargo até 2008, depois dos dois mandatos de seu antecessor, Francisco Renan Proença. Vista como um caminho para baixar mais rapidamente a taxa de juros, a proposta de déficit nominal zero (incluindo o pagamento dos encargos da dívida) dentro de quatro a cinco anos deve também ser adotada como meta e não apenas como referência, como chegou a dizer o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, entende o novo presidente da Fiergs. "O que não se mede não se gerencia", defende. "No Brasil medimos muito pouco os resultados. Vivemos muito mais na base da publicidade do que dos efeitos das medidas", afirma, citando o programa Fome Zero como exemplo. Um dos méritos da idéia do deputado Delfim Netto, conforme Tigre, é que, mesmo se ela for modificada, pode também gerar novas propostas para sustentar um projeto de desenvolvimento de longo prazo para o país. "O importante é ter coragem de botar novas idéias na mesa", afirmou. Para ele, a política econômica atual, com subidas e descidas da taxa de juros conforme o movimento da inflação, limita-se "praticamente a administrar o dia-a-dia" da economia e vem mantendo o custo de dinheiro em níveis que comprometem a competitividade da indústria. O empresário reconhece que a adoção do projeto, que inclui a redução das vinculações constitucionais no Orçamento da União e o corte ou pelo menos congelamento dos gastos públicos, pode ser difícil do ponto de vista político para o Executivo. Mas é aí, argumenta, que as entidades empresariais devem agir "politicamente" para dar apoio à medida, independentemente de se tratar de uma administração petista. "O governo não é só do PT; o partido elegeu o presidente e precisa de maioria para governar, mas cometeu um erro ao achar que tinha todo o governo", comentou. Mesmo que não seja implementada nos moldes em que está sendo proposta, o novo presidente da Fiergs entende que a meta de déficit nominal zero pode ser ainda um dos "aspectos saneadores" da crise política. Ao elevar o nível das discussões no país, a proposta ajudaria o governo a reconstruir sua base de sustentação no Congresso, pois a atual, montada sob "condições muito precárias", revelou-se frágil e também colocou a reforma política como prioridade na agenda nacional, à frente da tributária, previdenciária, sindical e trabalhista. "Se não sair uma reforma política é possível tocar um projeto de desenvolvimento consistente?", pergunta o dirigente. Aos 65 anos e eleito em chapa única, Tigre assume a Fiergs também com a intenção de reforçar a atuação conjunta das federações do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná junto às bancadas federais dos três Estados no Congresso para buscar maiores benefícios para a Região Sul. "A classe política do Norte e do Nordeste, por exemplo, trabalha muito mais unida do que a nossa", compara. O sistema Fiergs representa 115 sindicatos e dispõe de um orçamento, em 2005, de R$ 455,7 milhões, incluindo o Centro das Indústrias do Estado (Ciergs), o Sesi/RS e o Senai/RS.