Título: Tarso vai reestruturar finanças do PT
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Fonte: Valor Econômico, 11/07/2005, Política, p. A5
SÃO PAULO - Um dia depois de José Genoino entregar a presidência do PT e a Executiva passar por uma recomposição, o novo presidente do partido, Tarso Genro, decidiu investigar a gestão do antecessor e definiu ontem as medidas que serão adotadas para conter a maior crise de sua história. O novo presidente atua em dois fronts: reestruturação da área financeira da sigla, reduzindo a autonomia de ação da tesouraria e preparação do partido para as eleições internas, que permanecem marcadas para 18 de setembro.
O novo dirigente prometeu uma gestão transparente da área financeira, cujas possíveis irregularidades são o epicentro da crise que abala a sigla. Foi aberto processo no conselho de ética da sigla contra o ex-tesoureiro Delúbio Soares e o ex-secretário nacional Sílvio Pereira, ambos acusados de envolvimento nas denúncias de corrupção.
Serão registrados internamente todos os compromissos que o novo tesoureiro do partido, José Pimentel, tiver para tratar dos assuntos financeiros internos. " Todas as relações financeiras em nome do partido que não estiverem registradas nesse livro serão consideradas ilegais pela Executiva e quem tomar essa atitude estará sujeito às penas estatutárias e também à Comissão de Ética " , disse Genro.
No campo político, foi estabelecida a manutenção das eleições internas para 18 de setembro. Genoino não será mais candidato e Genro, provavelmente, irá substitui-lo na chapa do campo majoritária, ainda que não pertença a esta tendência. A relação do PT com o governo também mudará, com menor distinção entre os ministros petistas e a direção partidária. Para tanto, o novo secretário-geral, Ricardo Berzoini, que está deixando o ministério do Trabalho, apresentará um programa de relacionamento em que será examinado o trabalho dos ministérios sob o comando de petistas.
" O relacionamento dos ministros petistas com o partido será diferente daqui para a frente, porque nós entendemos que os ministros devem ao partido informação, discussão, explicações a respeito do que estão fazendo, para que o partido possa colaborar com esses ministros, jamais enquadrá-los. "
Genro disse que pretende dar uma " grande virada " e chegou a fazer um mea culpa sobre a crise. " Cometemos um erro, na minha avaliação, de jogar exclusivamente nas costas do PT a imagem de que somos os donos da ética e da virtude. Isso não é verdade. Somos sim um referencial da ética e da virtude. Não os únicos e não queremos ser os únicos porque em uma sociedade democrática, ou o sistema político e partidário se aperfeiçoa ou todo ele sucumbe. "
Questionado se o fato de assumir o PT seria o fim da hegemonia paulista no partido, o novo presidente afirmou que considerava importante a federalização interna, já que, segundo ele, a concentração de poder em um Estado transmite para dentro do partido, involuntariamente, suas divergências para o plano nacional. " É a socialização da hegemonia política do partido que se torna mais federado e mais democrático. " Nos 25 anos de história do partido, apenas um dos seis presidentes anteriores da sigla não era paulista. Foi o gaúcho Olívio Dutra, hoje ministro das Cidades, nos anos 1980.
Além das mudanças na presidência, na tesouraria, e na secretaria-geral do PT, foi decidida a ida do ex-ministro da Saúde Humberto Costa para a Secretaria de Comunicação, no lugar de Marcelo Sereno, também apontado como envolvido nas denúncias de corrupção.
A situação de Genoino foi agravada na sexta-feira com a prisão do assessor parlamentar de seu irmão, em São Paulo com R$ 200 mil em uma mala e U$ 100 mil presos ao corpo, sob a calça. Com isso, todos os quatro petistas acusados pelo deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ) de fazerem parte de um esquema de corrupção deixaram o partido. Os novos integrantes da Executiva foram escolhidos pela ala majoritária do partido.