Título: Correspondentes bancários recebem 90% de novas contas
Autor: Maria Christina Carvalho
Fonte: Valor Econômico, 11/07/2005, Finanças, p. C8

Serviço financeiro Em dois anos, pontos de atendimento triplicaram; algumas redes já superam bancos de varejo

Os correspondentes bancários são hoje a nova fronteira e principal canal de expansão dos serviços financeiros. Cerca de 90% das novas contas que surgiram em 2004 foram abertas em correspondentes bancários. Nos últimos dois anos, as contas abertas nos correspondentes bancários cresceram dez vezes, para 7,4 milhões em 2004, de acordo com dados apurados pelo Banco Central (BC). O número corresponde a boa parte do total de 7,9 milhões de contas abertas no sistema financeiro no ano passado, entre as de depósitos à vista (2,4 milhões) e de poupança (5,5 milhões), informadas pela Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban) no último Ciab, em junho. A própria Febraban avalia que a maior parte das novas contas é aberta nas iniciativas de bancarização, compensando as que têm sido encerradas por causa do processo de incorporação de bancos. Os pontos de atendimento dos correspondentes triplicaram em dois anos, de 14,1 mil em 2003 para 46,2 mil em 2004, e algumas redes já têm presença física maior do que a rede de alguns bancos de varejo. A Pagfacil tem 700 pontos e a Netcash, 500. Com a expansão das contas e dos pontos, o número das transações bancárias realizadas por meio dos correspondentes bancários tem crescido também, embora seu peso em valor ainda seja pouco expressivo em relação ao total. Os correspondentes intermediaram 783 milhões de operações financeiras em 2004 no valor de R$ 69,4 bilhões, com crescimento de 37,6% e 69,7%, respectivamente, em comparação com o ano anterior. No mercado todo, as transações bancárias giraram R$ 30 bilhões. As principais operações feitas em correspondentes são os recebimentos de contas, principalmente de concessionárias de serviços públicos, representando 75% do total. Em seguida vêm os pagamentos, como benefícios do INSS, e saques, com cerca de 8% cada um. Os especialistas dizem que esse é só o começo. Algumas instituições financeiras já nasceram no modelo de correspondente bancário. É o caso do Lemon Bank, que tem 3.750 pontos de atendimento e quer chegar a 4,4 mil até o final do ano, e do Banco Popular do Brasil (BPB), braço do Banco do Brasil (BB), com 5,5 mil. Outros bancos só descobriram o correspondente bancário recentemente. Mas estão concluindo que é o melhor canal para atender a baixa renda, pela capilaridade e baixo custo. O custo de uma transação bancária é de R$ 0,10 no correspondente bancário, informou um consultor, metade do custo que a mesma operação teria se fosse feita direto no caixa do banco. Os correspondentes economizam porque estão normalmente localizados em pontos de aluguel barato e dividem as despesas com outras atividades como os Correios, lotéricas ou lojas. Além disso, interessa aos bancos apelar aos correspondentes para diminuir o número de clientes nas agências e aliviar a rede. O Lemon Bank nasceu já com o modelo de correspondente bancário. "Nosso objetivo era ganhar capilaridade rapidamente e, por isso, agilidade era fundamental. Por isso procuramos as redes de correspondentes já existentes", disse Michael Esrubilsky, diretor geral do Lemon Bank. Os bancos que têm rede de agências, em geral, escolhem os correspondentes entre pontos avulsos de varejo. Algumas redes usadas pelo Lemon já existiam; outras, o banco ajudou a criar, transferindo tecnologia, marca, apoio de marketing e treinamento. Em dois casos, da Pagfacil e Multibank, o grupo acionista do Lemon achou o potencial de negócio tão interessante que acabou comprando as redes e as pondo a serviço inclusive de outras instituições financeiras. "Exclusividade não é problema. É o modelo de acquirer aplicado ao banco", disse Esrubilsky. As redes de correspondentes bancários surgiram em locais de baixa bancarização e, inicialmente, apenas aceitavam pagamento de concessionárias de serviços públicos, como fornecimento de água e luz, e recarga de celular. Ganharam impulso nos últimos três anos, quando a legislação permitiu a ampliação do leque de serviços. O Lemon, por exemplo, oferece conta corrente, aplicação em poupança, e, em parceria com outras instituições financeiras, crédito consignado (em parceria com o BGN), seguros (com o Icatu) e crédito pessoal (com a Losango). Para Michael Esrubilsky, o alvo preferencial do correspondente é atender os estimados 40 milhões de brasileiros que não têm conta em banco. Mas ele pode também complementar o banco tradicional ao funcionar com horário estendido, das 9 às 20 horas, inclusive aos sábado, sem fila nem porta giratória. O berço dos correspondentes bancários foi o Rio Grande do Norte, que há cinco anos tinha 16 empresas de arrecadação de pagamentos de concessionárias de serviços públicos. Uma das redes controladas pelo grupo acionista do Lemon Bank é a Pagfacil. A rede tem 700 pontos e quer chegar a 1,2 mil neste ano. Opera nos Estados de Alagoas, Maranhão, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro, Sergipe e Rio Grande do Norte. Novos pontos estão sendo prospectados. "É uma via de mão dupla: o serviço de correspondente pode elevar o faturamento do estabelecimento, que ganha uma tarifa", disse o superintendente comercial, Camilo Bezerra. Em troca, a rede coloca a máquina e treina os funcionários. No guarda-chuva do banco, a rede de correspondentes passou a receber títulos bancários, não só as contas de concessionárias, e a vender seguros. Em parceria com o Lemon, a Pagfacil sorteia motos e automóveis para estimular as pessoas a usarem a rede. "Há 10 anos, os bancos tratavam esse negócio como lixo até que descobriram que o lixo é um nicho e que dá dinheiro e pode vender qualquer produto, sem encher as agências", acrescentou Bezerra. O promissor negócio dos correspondentes bancários criou até a figura do gestor de rede. Um dos especialistas na área é a Netcash, empresa de tecnologia que nasceu no final de 1999, participando do projeto da Caixa Econômica Federal de instalar correspondentes bancários nas padarias, o Popbanco. O Popbanco chegou a ter 50 equipamentos. Mas a Caixa acabou optando por instalar seus correspondentes nas lotéricas. A Netcash, que havia desenvolvido um software próprio de captura das transações bancárias, transformou-se em um gestor de rede, figura criada pela Resolução 3.110, que faz um contrato-mãe com o banco e cuida dos pontos, comprometendo-se a resolver rapidamente os problemas. Isso traz segurança ao ponto de venda e ao banco, disse José Marcos Rasteiro, um dos acionistas da Netcash. O gestor faz a manutenção dos equipamentos e responsabiliza-se pelo risco de transferência dos recursos referentes aos pagamentos das contas para os bancos. A Netcash tem 500 pontos, que operam para o Lemon e outros bancos. A maioria dos gestores de rede fica no Nordeste, onde o sistema se desenvolveu mais por ser menos assistido pelos bancos. Apenas cinco operam em São Paulo, onde alguns pontos como Guarulhos e a zona Leste estão saturados. Mas Rasteiro vê oportunidades de expansão no interior de São Paulo, no Sul e no Centro-Oeste. Na região Norte há espaço mas a densidade demográfica é baixa. "Nos últimos meses, as pessoas perceberam que é mais cômodo pagar em correspondente bancário do que em uma agência para evitar filas. Além disso, mais serviços estão sendo agregados como seguros, crédito e títulos de capitalização", disse Rasteiro. Do lado do varejo, a operação de correspondente bancário pode aumentar de 30% a 35% a receita do estabelecimento comercial, dependendo do tipo de estabelecimento.