Título: Empresas fazem aposta no mercado interno
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 12/07/2005, Especial, p. A10

O dólar a R$ 2,30 se tornou uma pedra no sapato da principal atividade econômica de Franca. Com a perspectiva de reaquecimento da economia devido a uma possível queda na taxa de juros no segundo semestre, as indústrias calçadistas apostam no mercado interno. Mas a estratégia, que já se tornou lugar comum em épocas de rentabilidade ruim das exportações, acirra a competição no setor. Primeira empresa a exportar calçados no Brasil, a Samello comemora 80 anos em janeiro de 2006. A companhia destina 75% da produção para o mercado externo e, há 15 anos, não focava as atenções no país. Envolvida em dificuldades financeiras, a Samello profissionalizou a gestão e trouxe do setor de tecnologia - segundo comentário na região, "a preço de ouro" - o executivo Renato Furtado, que trabalhou na Lucent Technologies e na Xerox. Ocupando o posto de CEO, Furtado está enxugando a empresa e monta uma estratégia para o mercado interno. Ele contratou um novo estilista e pretende voltar as campanhas de marketing para promover a nova linha "Maxx por Samello", voltada para o público jovem. Furtado, porém, sabe dos riscos da estratégia de apostar suas fichas no mercado brasileiro. "Se o bolo é o mesmo, a competição será maior", diz. O executivo prevê um momento complicado para as exportações nos próximos meses e estima que os embarques da Samello devem cair 30% em 2005 ante 2004. Ele conta que cortou 20% dos funcionários que produziam sapatos para exportação. A maioria das demissões aconteceu em Franca, onde as quatro fábricas estão voltadas para a exportação. A empresa possui mais duas unidades na Paraíba, que produzem para o mercado interno. Em 2004, a Samello fabricou 10 milhões de pares. Segundo Furtado, a empresa está encontrando dificuldades para reajustar preços no exterior, devido à competição com os chineses. A alta do real reduziu em 20% a competitividade da Samello no mercado americano. Exportar produtos mais sofisticados também não resolve o problema. "Já estou no topo da pirâmide de valor agregado", diz. Os Estados Unidos respondem por 75% das exportações. O momento delicado para o setor também acelera a tendência de profissionalização, mesmo nas empresas em melhores condições financeiras. Há três semanas, os três acionistas da Democrata passaram a fazer parte do conselho de administração e criaram cinco diretorias-executivas: industrial, pessoas, marketing, comercial e financeira. Os donos prestigiaram os funcionários que já trabalhavam na empresa e promoveram os gerentes das respectivas áreas. A média de idade dos novos diretores está em torno de 30 anos. Com quatro fábricas, duas em Franca, uma em Camocim (CE) e outra em Novo Hamburgo (RS), a Democrata vende 60% da produção no mercado interno e exporta os outros 40%. É uma divisão parecida com a maioria das empresas de Franca, já que um terço da produção da cidade é destinada ao exterior. Antes do Plano Real, esse percentual chegava a quase 100%. A Democrata só começou a exportar em 2001. No início, 90% dos embarques eram destinados ao mercado americano. Hoje ele responde por 20% do total e a empresa exporta para outros 55 países. Metade das exportações é vendida com a marca Democrata, um diferencial em Franca, onde a maioria dos sapatos é fabricado por encomenda com marca de terceiros. Em 2004, a empresa produziu 1,6 milhão de pares de sapatos, alta de 40% ante 2003. A exportação aumentou 30%, para US$ 14,5 milhões. A meta é, apesar do câmbio, exportar US$ 18 milhões em 2005. Giuliano Spineli Gera, diretor-financeiro da Democrata, diz que não está preocupado com a alta do real. Gera tem 28 anos e começou na empresa como office-boy aos 14. Ele ocupou o cargo de gerente-financeiro por oito anos e, nos últimos dois, implementou na empresa um conceito aprendido na pós-graduação da Fundação Getúlio Vargas: o hedge. No ano passado, Gera travou todas as operações de exportação da Democrata na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) com o dólar a R$ 3,00. "Tivemos de decidir se iríamos especular ou garantir o negócio", disse. Na época, ele não imaginava que o dólar chegaria a R$ 2,30. Hoje, está rindo à toa e já trava as exportações previstas para março de 2006, comprando dólar a R$ 2,80 na BM&F. (RL).