Título: Crise chega a Franca pelos terceirizados
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 12/07/2005, Especial, p. A10
Atividade Total de títulos protestados subiu 40% no primeiro semestre e arrecadação de ICMS caiu 34% em maio
Edvaldo Aparecido Neves cola e costura sapatos desde os 11 anos, quando começou a trabalhar em uma indústria calçadista de Franca, interior de São Paulo. Hoje, aos 40, ensina o ofício para a filha Priscila, de 19 anos. O trabalho, o mais artesanal da indústria calçadista, é chamado de pespontar. Quando as indústrias terceirizaram esse serviço, Neves decidiu "trabalhar por conta". Começou em casa, com a ajuda da mulher e dois funcionários. Anos depois, ampliou, transferiu a produção para um galpão e entregou aos empregados a carteira de trabalho assinada e uma camiseta da nova empresa, a Newline. Recentemente, o sorriso orgulhoso do microempresário deu lugar a um semblante preocupado. Neves demitiu cinco dos 22 funcionários em 40 dias e já se tornou rotina dispensá-los mais cedo do trabalho. Todas as manhãs ele recolhe as encomendas nas fábricas. Na última sexta-feira de junho, um cliente entregou 40 pares, o outro, nenhum. A capacidade da Newline é de 350 pares ao dia. Os cálculos aprendidos no curso do Sebrae mostram a Neves que a empresa está no vermelho. Ele pegou empréstimo no banco para não fechar as portas, como meia dúzia de conhecidos. A mão-de-obra terceirizada é a primeira a sofrer com a crise que começa a se espalhar por Franca, provocada pelo desaquecimento da economia e pela valorização do real, que reduziu a competitividade das exportações de calçados. O clima nas rodas de empresários e nas portas das fábricas é de preocupação. "A gente não ouve mais anúncio de emprego na rádio e nem vê no mural do sindicato. Na semana passada, mandaram cinco embora. Ontem, mais um. E o boato é de que vai baixar a produção. Estou com medo de perder o emprego", relata o sapateiro Altamir Ferrari, 42 anos, sentado na porta de uma fábrica na hora do almoço. Com o emprego ameaçado, o francano, que é desconfiado como o mineiro (a cidade está a 32 quilômetros da divisa com Minas Gerais), cortou os supérfluos e está evitando compras a prestação. Os comerciantes reclamam de queda nas vendas e do aumento da inadimplência. Segundo a Associação do Comércio e Indústria de Franca (Acif), as vendas ficaram estáveis no Dia dos Namorados deste ano, após alta de 12% em 2004. Dados da Serasa preparados a pedido do Valor confirmam forte alta da inadimplência das empresas da cidade. Segundo André Chagas, assessor econômico da Serasa, o volume de títulos protestados de pessoas jurídicas subiu 40% em Franca no primeiro semestre do ano ante igual período de 2004. Esse índice caiu 1,9% no país na mesma comparação. A Óptica Melani ocupa há 60 anos lugar de destaque na praça central de Franca e tem mais duas lojas na cidade. Solano Botto, seu dono, reclama da queda de 30% nas vendas de filmes e materiais fotográficos de janeiro a maio ante igual período de 2004. A venda de óculos, seu negócio principal, está estável. Há duas quadras dali, Ezio Luiz Pedrosa, diretor-comercial da rede Droga Farma, também conta que caíram as vendas do setor de perfumaria. Sebastião Edson Savegnago, diretor-superindente dos supermercados Savegnago, conta que a procura por produtos mais baratos subiu 7% nas três lojas de Franca. A rede possui 17 lojas no interior paulista. "O consumidor daqui começa a trocar os supérfluos pelos básicos", diz. Com 319 mil habitantes, Franca se orgulha de ter 100% de água tratada e nenhuma favela. Desde 1994, quando o Plano Real provocou uma quebradeira na indústria calçadista, a economia da cidade se diversificou. Aumentou a oferta de serviços de saúde e universidades atraem gente de toda a região. De acordo com o IBGE, R$ 1 bilhão do Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 1,58 bilhão de Franca em 2002 veio do setor de serviços. A indústria respondeu por R$ 523 milhões. Mas os números mascaram a realidade, já que trabalhadores terceirizados do setor calçadista, que somam cerca de 6 mil, são considerados prestadores de serviço. Existem em Franca 600 indústrias de calçados, que geram 25 mil empregos diretos. Empresários e sindicalistas arriscam que o sapato masculino, especialidade do município, ainda representa, direta ou indiretamente, 65% do PIB. "A crise do calçado em razão do dólar atinge em cheio a prefeitura", diz Sebastião Ananias, secretário de Planejamento e Gestão Econômica. Em maio, a arrecadação de ICMS do município ficou em R$ 5,17 milhões, abaixo dos R$ 7,9 milhões de maio de 2004. Foi um tombo expressivo para uma arrecadação que atingiu R$ 40,2 milhões de janeiro a abril, superando os R$ 36,6 milhões do mesmo período de 2004. Conforme Ananias, a receita mensal total do município caiu para o menor nível em junho: R$ 15,7 milhões. Em janeiro, era de R$ 22,8 milhões. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), o saldo de admitidos ainda supera o de demitidos na indústria de calçados de Franca. De janeiro a maio, foram contratados 8.401 trabalhadores e dispensados 5.666, um saldo de 2.735. Só que esses números não incluem os terceirizados que já ficaram sem trabalho. Com o dólar a R$ 3,00 e a economia brasileira crescendo 5%, 2004 foi um dos melhores anos para as fábricas de calçados de Franca. Foram contratadas 24.549 pessoas e a cidade foi uma das que mais geraram empregos no país. Paulo Afonso Ribeiro, presidente do Sindicato dos Sapateiros de Franca, diz que era impossível controlar a quantidade de horas extras nas fábricas. "Até parecia que o dia começava as seis da tarde". Segundo o Sindicato das Indústrias Calçadistas de Franca, as exportações da cidade atingiram 10 milhões de pares em 2004, ou US$ 175,5 milhões, alta de 30% ante 2003. A moeda americana baixou para R$ 2,30, os juros altos esfriaram a economia e 2005 está se revelando uma decepção. Para Jayme Luiz Barbosa do Carmo, presidente da Acif, a crise ainda não está 100% instalada em Franca, porque as indústrias entregaram os pedidos feitos ainda em 2004 durante os primeiros meses deste ano. De janeiro a maio, as exportações de calçados caíram 5,95% em volume ante igual período de 2004, para 3,575 milhões de pares. A receita obtida subiu 4,8% na mesma comparação, para US$ 64,463 milhões, porque as empresas aproveitaram a demanda internacional para reajustar preços e vender sapatos de maior valor agregado. O espaço de manobra, contudo, está cada vez menor com a concorrência chinesa nos Estados Unidos, o principal mercado para a indústria francana. Ao mesmo tempo que os fabricantes brasileiros pedem reajuste, os garçons da churrascaria Nonomio, uma das mais tradicionais da cidade, notam que diminuiu a freqüência de importadores americanos de calçados. Com a perspectiva de queda dos juros, os fabricantes de calçados de Franca apostam suas fichas no mercado interno no segundo semestre do ano. Já a exportação vai depender da negociação entre as indústrias e seus fornecedores, para adequar os custos ao novo nível do dólar, avalia Carmo, da Acif. Os fornecedores relatam quedas expressivas nas encomendas. Segundo Wayner Machado da Silva, presidente do Sindicouro, o volume de couro enviado pelos calçadistas para curtimento caiu 30%. A Amazonas, maior produtora de solados de borracha do Brasil, também aponta queda de mais de 30% nas vendas. Com a autoridade de quem dirige uma empresa que existe na cidade desde 1947, Saulo Pucci Bueno vaticina: "Se dentro de três a seis meses, o mercado não melhorar, haverá uma grave crise."