Título: INSS vai fazer devassa em empresas do Rio
Autor: Cláudia Schüffner
Fonte: Valor Econômico, 13/07/2005, Política, p. A8

Uma devassa nas principais empresas do Rio é a primeira conseqüência da divulgação de uma fita gravada pela Polícia Federal com autorização judicial em que a auditora Maria Auxiliadora de Vasconcelos, do INSS do Rio detalha um esquema de "caixinha" na Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan). Na conversa ela afirma que a entidade pagaria uma "mensalidade" para evitar a fiscalização do INSS nas contas das empresas. Uma cópia da fita já foi encaminhada à Procuradoria Geral da República. Outra cópia foi entregue ao deputado Roberto Jefferson pelo advogado Nélio Andrade. Jefferson vai depor no Ministério Público do Rio na sexta-feira. Andrade representa o casal de auditores Maria Teresa Alves e seu marido, Francisco José dos Santos Alves, esse último é um dos treze fiscais indiciados por fraudes de R$ 3 bilhões que estão sendo investigadas desde o ano passado. Já Maria Teresa é a interlocutora da auditora fiscal Maria Auxiliadora, que na fita, gravada em agosto do ano passado, fala de um esquema envolvendo empresas do Rio. Nélio Andrade explicou assim a decisão de dar uma cópia do material para Jefferson. "Ele é o mentor de tudo isso. A fita prova tudo o que ele falou na CPI". Ontem, o procurador Fábio Aragão, do MPF, disse que já pediu ao INSS um levantamento sobre as maiores empresas do Rio retroativo a 2000. Ele quer saber quanto elas devem, quando foram fiscalizadas pela última vez e o nome dos fiscais. O vice-presidente da Firjan, Carlos Mariani, reagiu com indignação às afirmações de Maria Auxiliadora. Ela diz na gravação que a "mensalidade" era destinada ao PT e recolhida na Firjan pelo ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares, a mando do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. Conta que quem lhe falou do esquema foi o ex-ministro da Previdência no governo Lula, Almir Lando, que teria sido herdado das gestões dos ex-ministros Waldeck Ornélas e José Cechin, ambos ministros do governo FHC. O vice-presidente do Centro Industrial do Rio de Janeiro (Cirj), João Lagoeiro Barbará, qualificou como "fantasiosas e delirantes" as denúncias. E acha impossível a existência de um contrato entre a Firjan e a fiscalização do INSS. Fábio Aragão enfatizou ontem que não está acusando ninguém, mas quer ouvir o empresário Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, presidente da Firjan. De Paris, Gouvêa Vieira disse ontem para Barbará que não conhece e nem nunca recebeu Delúbio Soares na Firjan, e que também não chegou a conhecer o ex-ministro Almir Lando. Aragão disse que o MPF do Rio tem três testemunhas, uma delas já ouvida em juízo, sobre o suposto esquema: Maria Teresa e Francisco Alves e uma terceira cujo nome ele preferiu não citar. Maria Teresa não está indiciada. Maria Auxiliadora foi presa em maio deste ano mas responde ao processo em liberdade. Ontem, o ministro da Previdência, Romero Jucá, negou que tenha havido omissão em fiscalização ou cobrança de débitos junto a empresas do Rio de Janeiro, como parte de um acordo com a Firjan. Em nota oficial, o ministério também refutou as denúncias, alegando que dos 15 mil maiores contribuintes, 989 são do RJ e desses, 767 empresas tiveram, nos últimos dez anos, uma ação fiscal da Previdência. (Colaborou Arnaldo Galvão, de Brasília)