Título: Crise política tem impacto localizado em bancos
Autor: Cristiane Perini Lucchesi
Fonte: Valor Econômico, 13/07/2005, Finanças, p. C1
A exposição de nomes de bancos médios de capital nacional na mídia como possíveis participantes de esquemas de corrupção a políticos ou de tráfico de influência no governo não está impactando de forma generalizada as captações das instituições desse mesmo porte, segundo apurou o Valor. Os analistas ouvidos foram unânimes em dizer que a situação é hoje bem diferente do que aconteceu após a intervenção do Banco Central no Banco Santos, em novembro de 2004, quando uma crise de liquidez tomou conta desse segmento de mercado. À época, fundos de pensão venderam os Certificados de Depósitos Bancários de bancos médios e o mercado externo se fechou completamente para novas captações. Desta vez, no entanto, o novo solavanco na credibilidade se mantém localizado. O Banco Rural, citado como possível envolvido nos escândalos, teve sua nota de crédito ontem colocada em observação negativa para possível rebaixamento pela Austin Ratings, depois de a Moody's ter colocado o rating em perspectiva negativa anteontem e a Fitch ter, na sexta-feira, reduzido o rating nacional de longo prazo de "BBB" para "BBB-" e colocado as notas em perspectiva negativa. A justificativa das três agências foi a mesma: o desgaste de imagem do banco pela citação de envolvimento em esquemas de corrupção, além da denúncia do Ministério Público à 4 Vara da Justiça Federal, em Belo Horizonte, contra diretores da instituição por gestão fraudulenta e formação de quadrilha. "Entendemos que esta exposição poderá trazer efeitos negativos para sua imagem, com possíveis reflexos em sua operação", disse a Austin Rating. Para Raphael Guedes, presidente da Fitch no Brasil, é necessário ver como o investidor vai se comportar daqui para frente com relação ao Rural para saber o que vai acontecer com seu crédito. O Rural reafirmou ontem, por meio de nota, que as análises das agências de rating não fazem referência à saúde financeira e econômica da instituição, que opera com ativos líquidos de excelente qualidade de curto prazo (45 dias) e passivos de prazo médio (60 dias). O Rural ressaltou que a Austin é soberana em suas decisões. Segundo Guedes, parte dos fundos de pensão já deixou o mercado de bancos médios depois da crise do Banco Santos e hoje esses bancos possuem um colchão de liquidez maior, com os fundos de investimento em direitos creditórios e as operações de cessão de crédito fechadas com bancos grandes. Ele não vê crise de captação generalizada entre esses bancos. No mercado externo, foi observada na última semana apenas uma pequena venda de títulos do BMG, justamente o banco médio que tem o maior volume de eurobônus no exterior e que permite alguma saída ao investidor. Mesmo assim, a queda de preços nos títulos de US$ 200 milhões emitidos com muito sucesso em meio ao turbilhão político, no dia 22 de junho, foi irrisória, de 101% do valor de face para não menos do que 99,5% do valor de face. O BMG foi citado como credor do PT em um empréstimo no valor total de R$ 2,4 milhões, mas é considerado um banco com liquidez por boa parte dos analistas, com acordos de cessão de crédito com o Itaú, Cetelem e Caixa Econômica Federal e inúmeros FIDCs, entre eles um de R$ 300 milhões estruturado e distribuído pelo Itaú-BBA em 22 de junho, em meio à crise política. Já os eurobônus do Banco Rural não foram vendidos, pois seu vencimento será agora no dia 28 e a formação de preços fica difícil nessas situações. Além disso, os títulos somam US$ 25 milhões e não têm liquidez no mercado secundário. Mas investidores chegaram a se perguntar o que aconteceria no dia 28. O Banco Rural informou, por meio da sua assessoria de imprensa, que está no fluxo de caixa da instituição o cumprimento de todas as suas obrigações, nos respectivos vencimentos, sejam domésticas ou internacionais. "Qualquer nova emissão dependerá da existência de janelas específicas que atendam ao banco nos quesitos prazos e taxas", diz a nota enviada ontem ao Valor.