Título: Lula vê espaço para queda da taxa de juro
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 14/07/2005, Brasil, p. A3

Raymundo Costa Relações externas Presidente diz a empresários que não tomará decisões "pensando nas próximas eleições"

A crise política passou ao largo do primeiro dia da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Paris, que se estende até amanhã, quando assina acordos com o presidente francês Jacques Chirac. O presidente fez quatro discursos Depois de um deles, na Sorbonne, teve a oportunidade de falar sobre corrupção, mas ignorou a pergunta de um professor. Em vez disso, Lula preferiu sinalizar dias melhores na economia, num almoço com empresários franceses e brasileiros: "A reversão das expectativas inflacionárias e as medidas de controle fiscal sinalizam uma trajetória consistente de queda para a taxa de juros", disse. Aos empresários, Lula afirmou que não tomará decisões "pensando nas próximas eleições". Muito embora os jornais franceses tenham noticiado que Paris celebrava um presidente enfraquecido em Brasília, como dizia ontem o "Le Figaro", Lula aparentemente continua com prestígio intacto com os governantes e intelectuais da França. "Apesar da crise, Lula continua com prestígio. A sua imagem está mais estremecida pela ausência dos programas sociais que deveria ter implementado nos dois primeiros anos. A grande força de Lula é que ele é o único ponto de ligação entre o Norte e o Sul", disse o cientista político Alain Touraine, amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Touraine era um dos intelectuais franceses presentes à palestra "Brasil: Ator Global", que Lula pronunciou na Universidade de Sorbonne. Para seus padrões no Brasil, o presidente foi modesto em relação ao atraso: 30 minutos. Durante 35 minutos, Lula leu, em tom monocórdio, sua conferência, ouvida em silêncio por cerca de 200 professores e estudantes. Só quando respondeu a uma pergunta sobre o Haiti o presidente emocionou a platéia e foi aplaudido de pé. Lula pediu a solidariedade internacional para reconstruir o país. Sob o comando do Brasil, 6 mil militares integram a força de paz da ONU no Haiti. Ao final da palestra, Lula respondeu a três perguntas da platéia. O professor Stephanes Monclair, um dos organizadores do colóquio, perguntou a Lula a que o presidente atribuía o fato de 43% da população latino-americana haver demonstrado descrença com a democracia, segundo pesquisa internacional: desigualdade social, violência ou corrupção. Lula respondeu às outras duas perguntas, mas ignorou a de Monclair. Na Sorbonne, Lula atacou os subsídios agrícolas, concedidos em especial pelas nações mais ricas. Para o presidente, os subsídios são um dos fatores que permitem a perpetuação da fome no mundo. "Não é humano e racional que uma vaca tenha um subsídio superior à renda individual de centenas de milhões de homens e mulheres espalhados pelo mundo", disse. De acordo com Lula, estudo do Banco Mundial constatou que a liberalização do comércio agrícola significaria um faturamento extra global de US$ 200 bilhões, que poderia retirar mais de 500 milhões de pessoas da linha de pobreza. "O Brasil quer que sua voz seja cada vez mais ouvida no plano internacional, mas queremos também ouvir as vozes de outros países para identificar interesses comuns, intensificar o diálogo e a cooperação", acrescentou. Do lado brasileiro, Lula adiantou que nos próximos anos haverá pelo menos uma obra de infra-estrutura financiada pelo Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em cada país da América do Sul. Da Sorbonne, Lula dirigiu-se ao restaurante Le Pré Catelan, para um almoço com alguns pesos-pesados da indústria francesa que adiaram as férias de verão para ouvir o presidente brasileiro. "Pela primeira vez na história recente, os principais indicadores da economia brasileira estão alinhados num círculo virtuoso", disse, para acrescentar, mais adiante que "temos grandes projetos e buscamos grandes sócios para um novo ciclo de grandes investimentos". Lula enumerou as oportunidades: as Parcerias Público-Privadas - "convido-os a participar dessa nova forma de parceria com o Brasil"-, o investimento em energias alternativas e no setor de energia nuclear. "Queremos cooperar com a França no uso pacífico dessa fonte estratégica de energia elétrica." Já sem a presença dos jornalistas, mantidos a distância de Lula durante todo o dia, o presidente respondeu a quatro perguntas dos empresários. Em uma delas, disse que o erro de seus antecessores e da classe política em geral era o de olhar sempre "entre duas eleições", em vez de "enxergar o país em 30 ou 40 anos". Ele prometeu não tomar "nenhuma decisão pensando nas próximas eleições". Em resposta a outra pergunta, demonstrou cansaço com as reuniões do G-8 e os protocolos assinados. O presidente disse que estava cansado de ver país rico assinando protocolo sem consequência posterior e que tinha medo que esses protocolos virassem "um mundo de papel sem efeito prático". À noite, no jantar oferecido pelo prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, ao presidente brasileiro, o ministro Luiz Fernando Furlan (Indústria e Comércio) disse que "tudo indica que as medidas tomadas [para combater a inflação] surtiram efeito e que elas não serão necessárias no curto prazo", e por isso julga que o segundo semestre "seja uma escada descendente dos juros". Mas ressaltou que "entre o desejo e a realidade existe sempre uma grande distância".