Título: Diretor da Abin deixa o cargo, depois de ataque à CPI dos Correios
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 14/07/2005, Política, p. A8

A divulgação de uma mensagem assinada pelo diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Mauro Marcelo de Lima e Silva, causou uma enorme indignação entre os parlamentares da CPI dos Correios e culminou com o seu pedido de demissão, além de criar uma crise entre os poderes Legislativo e Executivo. Em tom de satisfação aos funcionários da Abin, Mauro Marcelo classificou a CPI de "picadeiro" e chamou os parlamentares de "bestas-feras". Parlamentares da própria base do governo defenderam a imediata exoneração do diretor da Abin e a CPI aprovou quatro medidas legais contra o diretor. Embora o incidente de ontem tenha ocorrido por volta das 14h, somente por volta das 22h Mauro Marcelo Lima e Silva pediu demissão. O presidente em exercício, José Alencar, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Jorge Félix, e o novo ministro-chefe da coordenação política e assuntos institucionais, Jaques Wagner, se reuniram durante todo o dia de ontem para debater a crise causada com o vazamento das mensagem do diretor da Abin. Na nota, Mauro Marcelo elogia a conduta profissional do funcionário da Abin envolvido nas investigações sobre irregularidades nos Correios, Edgar Lange: "Um verdadeiro herói ao enfrentar as bestas-feras em pleno picadeiro". Lange, quando depôs na CPI, pediu que seu depoimento fosse fechado ao público, ou então que falasse vestindo um capuz. Os parlamentares não o atenderam. Mauro Marcelo, que estava de férias, chegou ontem ao Palácio do Planalto às 22h para uma conversa com o presidente da República em exercício José Alencar. "Pedi para sair", afirmou Mauro Marcelo. O diretor da Abin ressaltou, no entanto, que a intenção da mensagem não era a de ofender nem os deputados e nem o Congresso: "Se vocês procurarem no dicionário Houaiss, besta-fera é uma situação humilhante e picadeiro é o palco onde ele foi exposto. A intenção não era a de ofender o Congresso, mas dizer que ele foi humilhado em execração pública". "Por mim ele teria sido exonerado no primeiro minuto", afirmou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). A CPI, que virou palco para que deputados e senadores de todas as correntes protestassem contra a nota, aprovou na noite de ontem quatro medidas contra a Agência: a convocação do diretor-geral da Abin e do ministro Jorge Félix para depor, a representação do caso ao Ministério Público, a comunicação do fato aos presidentes da Câmara e do Senado e uma comunicação para que o ministro Félix informe formalmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o episódio. Além das ofensas aos parlamentares e à CPI, o diretor revelou na mensagem, colocada na intranet da Abin, datada de 6 de julho, que tentou, "até à última hora", evitar o depoimento do agente Edgar Lange - responsável pela investigação que a agência fazia nos Correios - à CPI, que acabou ocorrendo há duas semanas. "Estou, pessoalmente, tentando entender a falta de empenho da AGU (Advocacia-Geral da União) na proteção do nosso servidor", afirma Mauro Marcelo na nota. Outro ponto da mensagem também causou indignação aos parlamentares: "Desse episódio vamos tirar muitas lições, mas lembrem-se, só podemos consertar o telhado com o tempo bom", diz o comunicado. "Isso é sem dúvida uma ameaça velada a todos os parlamentares do país, em especial aos que estão na CPI e estes assuntos terão de ser amplamente investigados", afirmou a senadora Heloísa Helena (P-Sol-AL). O líder do governo no Congresso, Fernando Bezerra (PTB-RN), afirmou que Mauro Marcelo sequer deveria ser convocado a depor na CPI. "Esse sujeito não merece nem mesmo vir aqui, é um desrespeito, temos que puni-lo", afirmou. O deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), também da base do governo, afirmou que a mensagem do diretor é um desrespeito ao Congresso. "Ele utilizou termos que jamais seriam cabíveis e temos que adotar todas as ações possíveis, inclusive criminais", disse. (MZ e HGB, colaborou Taciana Collet)