Título: Troca de cartas pode acelerar acordo com China
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 15/07/2005, Brasil, p. A3
O governo brasileiro está disposto a sentar na mesa de negociação com a China "o mais breve possível" em busca de acordo que evite a adoção de salvaguardas específicas contra o país. Essa é a mensagem de carta que o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, envia segunda-feira a Pequim. O documento é uma resposta a outra carta que o ministro do Comércio da China, Bo Xilai, mandou ao colega brasileiro esta semana em busca de conciliação. Será a quarta correspondência trocada entre os ministros dos dois países desde que o Brasil sinalizou que regulamentará as salvaguardas específicas contra a China previstas no protocolo de entrada do país na Organização Mundial de Comércio (OMC). "O Bo Xilai foi receptivo. O Furlan vai aproveitar essa boa vontade e negociar", afirmou uma fonte do Ministério do Desenvolvimento ao Valor. Furlan, que acompanha viagem do presidente Lula a Paris, acertou ontem, por telefone ,com assessores o teor da carta e deve finalizar o texto segunda-feira em Brasília, antes de partir para viagem a Chipre e Israel. A ida de Furlan a Pequim para a negociação com Bo Xilai ainda não tem data marcada, mas deve ocorrer "o mais breve possível", conforme fonte do ministério. A data-limite para o encontro é setembro, quando o vice-presidente da República, José Alencar, deve visitar a China. Mas não está descartada a possibilidade de que a reunião entre os dois ministros ocorra antes. O Ministério do Desenvolvimento está preparando a documentação, porque o objetivo é fazer uma reunião "prática", na qual já serão discutidos acordos para os setores que se sentem prejudicados pelo avanço das importações chinesas, como têxteis e calçados. Furlan aguarda que sua equipe reúna dados que comprovem dano à indústria nacional. Ele também quer levar para a reunião sugestões sobre como a China deveria restringir suas exportações para evitar prejuízo à indústria brasileira. De acordo com o ministério, o diálogo entre os dois países não está vinculado à regulamentação das salvaguardas, que foi aprovada pela Câmara de Comércio Exterior (Camex) há três semanas. Os dois processos correm em paralelo e, conforme fontes do governo, o decreto presidencial sobre o assunto deve ficar pronto na próxima semana. A regulamentação não causaria mal-estar com os chineses, pois ainda será necessário que o setor privado apresente os pedidos de salvaguarda para que se inicie a investigação. Mas a indústria já reclama do atraso na publicação do decreto, que está em análise na Casa Civil. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) enviou um ofício a Casa Civil. "Sabendo da aprovação do texto que regulamenta as salvaguardas na reunião do último dia 22 de junho, na Camex, esperamos da Casa Civil a máxima celeridade para aprovação e publicação do decreto presidencial ", diz o documento obtido pelo Valor. A assessoria de imprensa da Casa Civil informou que está aguardando parecer do Ministério das Relações Exteriores sobre o tema. Segundo a assessoria, é normal que os ministérios envolvidos elaborem pareceres técnicos. Uma fonte da indústria estranha o procedimento, já que a regulamentação foi elaborada por funcionários de diversos ministérios, reunidos no Comitê de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex). A assessoria do Itamaraty não conseguiu entrar em contato com os responsáveis por esse assunto, que estão em viagem ao exterior. Os chineses aguardam pela sinalização do governo brasileiro. "A China não quer o ônus de uma crise política com o Brasil. O país deveria pegar esse ramo de oliveira estendido por Pequim", diz uma fonte ligada ao governo chinês, acrescentando que comércio com o Brasil representa pouco para a China, mas um atrito repercutiria mal nos fóruns internacionais onde os dois países são aliados, como na Organização Mundial de Comércio (OMC). (RL)