Título: Brasil mantém proposta para o Conselho da ONU
Autor: Raymundo Costa
Fonte: Valor Econômico, 15/07/2005, Brasil, p. A3

O governo brasileiro vai insistir na proposta de reformulação do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), apesar do pedido dos Estados Unidos para que ela fosse retirada. A informação é do chanceler Celso Amorim, que acompanha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva à França. O Brasil é um dos candidatos a uma das cadeiras permanentes do Conselho de Segurança. "Não é um obstáculo intransponível [o pedido americano]. Na Assembléia Geral não há veto. Os países tem o voto", disse Amorim. "Os Estados Unidos têm influência. Mas outros países igualmente influentes estão apoiando a reforma. A proposta está viva, não é uma representação isolada de um ou outro país", acrescentou. O G-4, grupo autor da proposta de reforma, que inclui Brasil, Índia, Alemanha e Japão, retardou ao máximo a apresentação da proposta para negociar e tentar o apoio da África, cuja proposta, segundo Amorim, é muito parecida com a brasileira. "É muito importante ter hoje a África unida", destacou Amorim. De acordo com o chanceler, o fato de os outros três países integrantes do G-4, (Alemanha, Índia e Japão) terem feito uma reunião, semana passada, em Londres, com Gana, um país africano, "prova que a idéia é séria e está viva. Não é uma idéia estapafúrdia, é racional, cujo momento, creio, chegou", disse Amorim. Além de Gana, o G-4 deve ter outra reunião, próxima semana, em Nova York, com um representante de Camarões, que falará em nome do continente africano. Amorim destaca a influência dos países que apóiam a reformulação: Japão e Alemanha, "que são do grupo dos países mais ricos", a Índia, "que é um dos países de maior população no mundo" e "o apoio do Reino Unido e da França, que são membros do atual conselho". O chanceler acredita que a posição da Rússia, que ao lado da China e dos EUA se opõe à proposta, pode ser revertida. "Como depende de uma votação, não podemos saber o resultado antecipadamente", disse Amorim, ao falar sobre suas expectativas em relação à decisão da Assembléia Geral da ONU, a ser tomada em setembro. A proposta do G-4 prevê a ampliação do Conselho de Segurança da ONU em mais 10 integrantes, sendo cinco no conselho permanente, e quatro rotativos, sendo um africano. Dentro de 15 anos seria discutido o poder de veto dos novos integrantes, o que não é previsto na proposta atual. Em Paris, Amorim comentou também o fato de os 146 países-membros da OMC (Organização Mundial do Comércio), pela primeira vez, aceitarem negociar a redução das tarifas agrícolas tendo como base um texto do G-20, o grupo de países em desenvolvimento liderados por Brasil e Índia. Na avaliação de Amorim, os elogios à proposta do G-20 permitem que se possa esperar por "avanços" nas próximas reuniões. O otimismo de Amorim se deve ao fato de as negociações estarem inteiramente emperradas, desde o fracasso da reunião em Paris, no primeiro semestre do ano. Havia o temor de que as conversações só apontassem para algum tipo de acordo em 2006. Agora, há expectativa de que já em dezembro possam ser fechados alguns pré-acordos que permitam desenhar a redução futura das tarifas agrícolas.